Da calçada da rua, as janelas atrás da sacada do prédio pombalino deixam transparecer uma luz alaranjada, suave e misteriosa, apetecível de ser observada de dentro e de fora.
Nos primeiros passos prévios perscruto o que está para lá do portão de ferro. A expectativa do que iremos encontrar.
Entro num pátio desolado com caixotes do lixo encostados à parede e uma bicicleta perdida entre eles. Atravesso-o e sobem-se as escadas enegrecidas de madeira, quase podre. Ao subir-se o outro lance de escadas parece que os nossos pés estilhaçam o que pisam e o ranger da madeira acompanha-nos até ao primeiro andar. Estou em casa de alguém, que não sei de quem. No hall da casa, à esquerda, um balcão com ligação à cozinha. Mesmo em frente a este uma porta de madeira pintada de cinzento que se abre para uma sala com chão flutuante de madeira já “com bicho” coberto por uma carpete bordou com as pegadas de sapatos de quem calcorreia avenidas e ruas e ruelas. As paredes são laranja com pontos pretos e pintadas ainda de verde. A sala é tingida de cores e tons de presença. Os tectos altos em gesso creme parecem estar em zanga e briga permanentes com as paredes coloridas, ao mesmo tempo, que lá do alto parecem sustentar por fios invisíveis o chão de madeira com o fim último de albergar todo o recheio da casa.
O pó respira-se, a humidade cheira-se. Pensamento: não recomendável a quem sofra de alergias.
Ao meio da sala uma estante baixa com duas pequenas prateleiras com livros velhos tombados. Em cima dela, uma televisão ligada, pequena, que não funciona, transmite as vibrações características, a preto e branco. De um lado da televisão uma cafeteira. Para trás da estante forma-se um corredor largo nesta sala e ao meio um piano, fechado, que outrora deve ter sentido a avidez de dedos compridos e suaves a tocarem as suas teclas, do eco do som melódico e afinado a espalhar-se. No centro da sala, ainda que o seu aspecto seja o de ter estado anos e anos num sótão ou cemitério de pianos sem ninguém saber da sua existência, enternece o ambiente.
As luzes mesclam as sombras. Os candeeiros de luz amarela improvisados apresentam as pessoas em tons de sépia. As pessoas, algumas, não muitas, são o sinal mais intenso de habitabilidade existente nesta casa.
Um rapaz e uma rapariga estão sentados de frente um para o outro numa mesa baixinha, que podia ser uma das mesas que havia em casa da minha avó. Conversam. Em cima da mesa está um xilofone.
Agachada, detenho-me um pouco na estante dos livros, onde encontro revistas familiares «Time Out» e um livro intitulado «A saúde pelo limão» que abro ao calhas numa página e que me faz rir:
o sumo de limão tomado com um pouco de mel faz bem à mente, clarificando-a. Alguém que desconheço observa-me enquanto leio e me rio. Enceta conversa e demonstra curiosidade em folheá-lo.
Pouso o livro. Passo para outra sala. Nesta sala não há luz, só a penumbra da luz da sala de onde venho e de um corredor muito iluminado que tem uma mesa rectangular cheia de garrafas vazias de cerveja e uma cadeira vazia de cada lado da mesa. Esta sala é uma sala diferente da anterior. Tem sofás de tecido já roto com mantas também de tecido por cima deles e mesas minimalistas manchadas das bases dos copos e um pequeno estrado onde se improvisa música
chillout. Há grupos pequenos de pessoas por ali sentados. Para ouvir parte do concerto sento-me numa das cadeiras de escritório em pele confortáveis de braços, sem pés, que se podem arrastar pela a alcatifa.
Já quase de saída, em mais uma volta circular, meto o nariz novamente em todos os recantos e descubro uma casa-de-banho de azulejos e uma divisão semi-fechada com uma frincha aberta que deixa antever muitos cabos e fios e aparelhagens, parecendo tratar-se de um mini-estúdio.
Os espanhóis continuam no quarto do fundo transformado em sala, em amena cavaqueira, sentados todos em roda no chão, recostados à volta de uma mesa de verga castanha escura. Pequenos grupos dispersam-se pela sala dos quadros de fotografias. Um rapaz e uma rapariga bebem chá num canto de uma mesa de jantar redonda.
A pequena varanda estreita em largura e pequena em comprimento parece aproximar as pessoas de interesses mais divergentes e motivações mais distintas. No espaço mais exíguo desta casa é onde se encontra a multidão! Talvez pelo facto, de por aqui, não haver espaços iguais e as pessoas que por lá se encontram apresentarem formas de estilo tão diferentes, isso explique a vontade de se sentarem e de “tertuliarem” numa língua qualquer. Chegamos e há quem comece a falar connosco do nada e de coisa nenhuma e não se cale e, por fim, se levante para nos ceder o lugar onde se ouvem restos ou inícios de conversas, onde se descobrem os
feelings de um cruzar de uma Lisboa velha com uma Lisboa nova, de um mundo inconfessável, do prazer de um ambiente desconstruído e alternativo.