domingo, fevereiro 24, 2008

José Luís Peixoto

« - Porque é que ainda hoje hesita em falar de si como escritor?
Escritor é uma palavra que associo a outras pessoas, à volta das quais construo um espaço mítico. Escrevo livros, mas faço muitas outras coisas. Lavo a loiça, vou ao supermercado, ás Finanças, faço a inspecção do carro... É verdade que já tenho indícios de que não há melhor forma para descrever aquilo que faço, embora eu não seja apenas o que faço profissionalmente. Há momentos em que preciso de não ser escritor. Sou uma pessoa completamente banal.

- Em Portugal, é raro poder-se viver exclusivamente da escrita. Como se consegue isso?
Posso dizer que tive sorte ou que algumas coisas me aconteceram, mas também tenho de fazer justiça a mim próprio: trabalhei para que assim acontecesse e continua a ser assim, dia após dia. Em todos os romances que escrevi tive de superar a vontade permanente de não os escrever. É mais fácil não escrever do que escrever.

- É um processo doloroso?
Num certo sentido é, mas tudo o que vale a pena é doloroso. (...). Escrever tem o esforço e recompensa, como todas as coisas que são efectivamente reais. O prazer depende do esforço. Escrever é passar muitos dias fechado numa casa, a trabalhar e a pensar naquele mundo e naquelas palavras, deixando tudo o resto de fora. Mas quem não sabe o valor de ter duas ou três páginas escritas de um romance e pensar que aquilo é a minha verdade é uma pessoa que não escreve.

- Não escreve diariamente?
Quando estou a escrever funciono um pouco de forma obcessiva. Há pouco disse que não sou só escritor, mas há períodos em que sou só escritor em todos os momentos do dia. Vejo o mundo pelo filtro dessa matéria que são as palavras. Assimilo tudo e tenho consciência disso de uma forma muito verbal. (...) Quando escrevo um romance, o meu espaço é muito maior, sinto-me mais amplo, tenho mais alternativas, mais possibilidades. (...) Há sempre um mundo que anda connosco. Se fechar os olhos ele está aqui. Faço parágrafos nos pensamentos. É uma coisa esotérica (...).

- E quais são os seus princípios?
São altamente subjectivos e díficeis de definir, mas acho que têm alguma a coisa a ver com querer entender os outros entendendo-me a mim próprio. Procurar o meu lugar na medida em que ele faz parte de alguma coisa que é a Humanidade. Crescer, aprender e ficar mais próximo do bem. Não agredir. Não violentar. Há palavras que estão fora de moda, mas que são essenciais. Uma delas é aquilo que procuro mais: a bondade. É uma palavra fora de moda, mas tão bonita! A todos os níveis.

- Não se desilude?
Sim. Mas a culpa das desilusões é minha. Não vejo como possa ser de outra maneira.

- É o medo da morte chegar assim?
Quando temo mais a morte é quando estou mais afastado dela. Quando ela aparece, torno-me mais sereno na forma de a antever. Porque a única coisa que se pode fazer é viver o melhor possível, não fechar os olhos. Isso é que é doloroso (...).

Acredito muito nas coisas que dão trabalho. Tenho muita pena que os nazis tenham dado à expressão "o trabalho liberta" uma conotação horrível. O trabalho traz dignidade para quem o exerce. Não acredito que as pessoas que não trabalham sejam indignas.»

Entrevista de Cristina Margato