segunda-feira, dezembro 31, 2007

2007



Noites fragéis. Habituar-me a ausências.

Vir à lembrança, com ternura, nunca sabermos tudo sobre alguém (próximo) e pela surpresa poder prevalecer...

O tempo, ás vezes a ser passagem de tempo devagar e lento dos dias...

Pessoas que tem a minha vida e a minha memória. Nostalgia segura do passado feliz.

Planos feitos a serem tempo perdido, um tempo que é só de sonhar.

Precisar sentir. Não saber o que quero sentir.

Medo, a ser também a certeza de dias felizes no futuro diferente. Procurar caminhos novos, ainda que neles novos problemas mas também novas soluções. Ter a cair em cima de mim mudanças (aquelas que não esperamos, custa mais aceitá-las) e o desafio gratificante de as tentar ultrapassar. Crescer e ganhar tempo de vida, ao mesmo tempo.

Partes da vida a serem independentes da minha vontade (não sei se sei lidar com isso), por isso à procura de um vento da vontade

Saudades dos "dias de céu azul". Ausência de algo ou de alguém que por gostarmos assim na forma do gostar, gostaríamos de sentir perto ou ainda mais perto e não está: senti-lo. Estar rodeada de muitas coisas mas sentir a falta de apenas uma. Lembrar os momentos irrepetíveis. A suavidade de um beijo. O aconchego e a cumplicidade de um abraço. Esboçar um sorriso desajeitado, num momento que não o pedia, porque de repente aquele estado de um formigueiro frenético a percorrer-nos o corpo, na lembrança do recordar. Saber que não é emendável, porque foi tão bom, que conseguiu deixar-nos saudades. Tudo o que é mais que demasiadamente bom traz-me e deixa-me sempre saudades mas também a certeza de que não se trata de viver em dias de céu cizento escuro, mas em "dias de céu azul". E poder "querer sentir saudades de hoje, amanhã quando acordar, como sinto hoje do dia de ontem", "dias de céu azul", a serem a minha acumulação dos momentos bons...

2007 a fazer adivinhar a mudança para 2008

sábado, dezembro 29, 2007

Rodrigo Leão

Hoje, naquele canto de uma tarde cheia, inventada nas expectativas, por instantes, um espaço incrivelmente… perfeito, a ser o outro lado das estórias, reflectidas nas imagens projectadas em tela, ora a encaixarem-se, ora a dissiparem-se na sonoridade musical, genuína, delicada.
A música a ser lume maior para dentro da pele da alma, a ser longe e a ser perto…

Gostei. Gostei muito de os ver a todos e a cada um. Gostei muito de estar tão perto do Luís Sampaio e de sentir a um palmo de distância o seu ritmo, o seu balançar, a sua simbiose com o Rodrigo Leão.
Houve momentos que não me vou esquecer… bons, mesmo bons ;)

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Rascunhos

E quando nos sentires o compasso não desenha o círculo perfeito e nos foge e traça um risco brusco e repentino?
E quando se escorrega nas palavras e nos silêncios?
E quando avançamos, aqui e além, de uma forma quase solta, porém que nos impele a ser mais precisa?

Emendável?

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Memórias de Santa Maria

«Meu caro Correia de Campos, amigo e camarada:
Continuemos a nossa conversa. O tal corredor à esquerda de que já falei conduzia ao Serviço de Observações, que não me deixou boas recordações. Há uma espécie de princípio: "Ó vós que aqui chegais abandonai tudo o que pertencia ao mundo." Um despojamento total. Tire a roupa: anotam peça a peça e amarrotam-na cuidadosamente em sacos que não têm pegas, para dar ao acompanhante que espera lá fora. Depois disseram: "Tire os óculos." Respondi: "Não tiro." A seguir o relógio. E segundo o regulamento, deveria entregar o telemóvel. Recusei. Por fim, o livro que levava comigo. Segundo o regulamento, não se pode ter livros! É assim que pretendem fomentar a leitura? Recusei entregar os Doidos e Amantes da Agustina Bessa-Luís, dizendo que da Agustina ninguém jamais me separaria. Deram-me então um papel com a lista das minhas infracções, para eu assinar. O que fiz orgulhosamente. Mas, como dizia o outro, orgulhosamente só. Quase todos os que ali chegavam vinham num tal estado de desamparo existencial que aceitavam todas as ordens, sobretudo se enroladas naquele tom melífluo que pretende infantilizar o outro: "Agora a roupinha, senhor Silva." Conheço mesmo um caso em que a uma senhora já de idade pretendiam tirar os dentes que lhes pareciam postiços. E não eram.
Não sei quem elaborou regulamento tão estúpido e quais as fundamentações para ele (medo dos roubos?). Imagine apenas, meu caro amigo, aquelas pessoas que sem óculos não vêem um palmo adiante do nariz e entram numa bruma espessa. Imagine ainda que elas também entram num espaço sem tempo, em que já quase não sabem se é noite se é dia, no mundo dos vivos. O desespero é total. Antes deixar que nos roubem o relógio do que ficar nesse limbo da existência em que os séculos se confundem.
Segundo ponto. É suposto que as pessoas que ali entram sejam levadas a diversas modalidades de exames nos mais diversos andares. São então conduzidas por corredores extremamente frios e sentem que pelo baixo custo de uma taxa moderadora lhes deram por extra uma excursão à Lapónia. As bandeiras das janelas estão abertas certamente no cumprimento daquele princípio que qualquer dona de casa aplica no seu lar: é preciso arejar a casa. Mas aquelas viagens no gelo, à espera de elevadores que avariam dia sim, dia não, têm algo de uma verdadeira aventura.
Há outro aspecto interessante: é o serviço que envia que fica encarregado de ir buscar a pessoa na sua maca. Por motivos de engarrafamento, por vezes é preciso esperar cerca de uma hora que apareçam. Os menos resistentes acabarão por morrer. Outros apanharão broncopneumonias. Apenas alguns, num vigoroso princípio de selecção natural, conseguem sobreviver. E então logram aplicar o princípio nietzschiano: o que não me mata dá-me forças.
Talvez haja vantagens que eu ignore nesta alternância violenta entre o calor das salas e o frio intenso dos corredores. Se assim for, Santa Maria cumpre na perfeição a sua tarefa. Não é a taxa moderadora, mas o frio moderador. Neste país insuportavelmente frio, onde os estrangeiros pensam que "frio" é uma palavra desconhecida.»

Eduardo Prado Coelho, in Jornal Público, 29 de Dezembro de 2005

terça-feira, dezembro 25, 2007

Natal...

a ser nós cegos apertados e entrelaçados de amor incondicional ;)

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Pelo mundo dos sonhos

Foi já há um ano que vi esta curta-metragem no cinema "O Outro Lado do Arco-Íris", de Gonçalo Galvão Teles e, hoje vi-a de novo... Soube-me bem!

«O bem dos livros é que eles podem ser aquilo que nós quisermos.
- Se juntares as sete cores vais ter tudo.
Vai até ao fim do arco-íris e lá é que tens o pote de ouro.
- Sabes-me dizer onde é que fica o fim do arco-íris?
- É fácil, é só seguires as sete cores...
- Até onde?
- Até onde elas te levarem!»

Carica, deseja uma bicicleta como presente de Natal. Mas a sua família não pode concretizar o seu sonho. Entretanto, o avô conta-lhe a história do pote de ouro no fim do arco-íris. No primeiro dia em que faz chuva e Sol, o rapazinho parte para uma grande aventura.
O Outro Lado do Arco-Íris é uma história em que a realidade se confunde com o sonho. Imaginado por uma criança, sobre uma criança, e para ser visto por crianças. Ou pela alma de criança dos adultos.O Outro Lado do Arco-Íris é também uma história de aprendizagem, de quem parte em busca do sonho e descobre a realidade, e de todos aqueles que quiserem ver no filme coisas simples da vida, a que só damos valor quando sentimos falta delas.
Esta curta-metragem transmite uma história de tradição oral com a mesma pureza e simplicidade com que nos foi transmitida a nós, integrando para sempre o imaginário de fantasia que nos faz sonhar.
Carica tem apenas sete anos e quer uma bicicleta de presente de Natal. Mas a sua família não tem dinheiro e oferece-lhe um livro. O avô conta-lhe a história do pote de ouro no fim do arco-íris. No primeiro dia em que faz chuva e sol, Carica lança-se à aventura.
O SONHO
Uma criança de sete anos joga à carica num terreno em frente a uma pobre casa alentejana. O jogo deste rapaz, de nome Carica, é interrompido pela mãe, que o chama para o jantar de Natal. Sentada à mesa está toda a família à espera, sobretudo o pai que impacientemente mostra o seu desagrado. Quem não se importa nada com a espera é o avô, sempre enternecido com as atitudes do neto Carica.Depois de comer o jantar o mais depressa que pode, Carica tenta juntar toda a família à volta da árvore para a distribuição dos presentes. Mas o entusiasmo do momento desaparece rapidamente quando descobre que em vez do dinheiro que esperava para poder comprar uma bicicleta, recebe apenas um livro de contos infantis, igual ao de tantos Natais. Indignado por não ter recebido o presente que esperava, Carica prefere esperar por uma prenda da fada boa, ao que o pai reage com uma frase feita sobre fantasias. Amuado, Carica foge para a queijeira anexa à casa. Preocupado, o avô vai atrás dele. Não conseguindo esconder as lágrimas, Carica explica ao avô que a sua grande ambição é ter dinheiro para comprar todos os brinquedos do mundo. O avô, sentado na sua cadeira de palha com um só braço, chama Carica para o seu colo, entoa a cantilena do costume e conta-lhe a história do pote de ouro no fim do arco-íris. Fascinado, Carica sonha com tudo o que poderia comprar se conseguisse deitar a mão a tanta riqueza. No primeiro dia de aulas após o Natal, Carica refugia-se atrás do seu livro, lendo repetidamente a história do arco-íris. A chuva que caía pára e um enorme arco-íris desenha-se no céu. Carica decide-se a partir em direcção ao pote de ouro. Só parará quando lá chegar.
A BUSCA
Sem tirar os olhos do arco-íris, Carica atravessa alegremente a planície alentejana, cantando uma versão sua da “Branca de Neve e os Sete Anões”. À medida que o seu objectivo parece ir-se afastando, Carica vai perdendo o ânimo e parando de passo em passo para perguntar onde fica o fim do arco-íris. Uns gozam com ele, outros dão-lhe pistas enigmáticas, mas ninguém tem a solução. Ao aproximar-se de Lisboa, Carica tem a sensação de que as sete cores caem no meio de uns prédios altos. Ganhando novo fôlego, Carica corre com mais força do que nunca na sua direcção.Cai a noite e Carica caminha agora pela parte pobre da cidade, perdido e assustado com o que se passa à sua volta. Morto de fome, tenta roubar um pedaço de pão de um sem-abrigo que por momentos virou costas ao seu “jantar”. Mas, mais rápido do que Carica, o sem-abrigo apanha-o e ameaça-o. Carica tenta explicar atabalhoadamente que anda à procura de um pote de ouro, de que dará metade ao sem-abrigo se ele o deixar ir embora. Convencido de que Carica precisa mais do pão do que ele próprio, o sem-abrigo solta-o com um sorriso.Mais tarde nessa noite, Carica continua perdido, com frio e ainda com fome. Um carro pára perto de si e um Homem de Chapéu atrai-o oferecendo-lhe um chocolate. Carica não resiste e aproxima-se do carro, para dentro do qual é puxado pelo próprio Homem de Bigode, que está acompanhado por um zarolho ao volante. Levam Carica para um velho armazém onde o atam a uma cadeira com um só braço, que lhe traz à memória o Avô e a cantilena que este lhe costumava entoar. Adormece embalado por esta. Acorda sobressaltado com a discussão entre os seus dois raptores sobre o destino que lhe darão. Carica apercebe-se de que as costas da cadeira estão separadas do assento e tenta fugir com elas atadas às suas, mas é apanhado. A vontade dos raptores de se traírem um ao outro acaba no entanto por os trair a ambos, e Carica aproveita a luta em que se envolvem para escapar.Carica foge a sete pés e olha constantemente para trás. Ao passar por debaixo de uma ponte tropeça numas pernas estendidas e cai. Quando se volta, apercebe-seque se trata do sem-abrigo. Este oferece-lhe a sua cama feita de cartões velhos e jornais, Carica ainda hesita mas o cansaço é mais forte que o medo.
«- Puto, anda cá!
- Lá em casa também durmo no chão, num colchão velho!"
- Vá deita-te... Dorme puto.»
Mal a sua cabeça toca o chão, adormece profundamente.
O OUTRO LADO DO ARCO-ÍRIS
Ao nascer do dia Carica lança-se novamente à aventura. Chegado finalmente ao castelo onde mergulham as sete cores, Carica descobre o pote cheio de moedas de ouro. Alcançado o sonho, atira as moedas ao ar de contentamento. Mas o sol põe-se, o arco-íris desaparece e uma estranha tristeza invade Carica. É já noite escura quando Carica chega de novo à ponte debaixo da qual dormiu e onde se prepara para abandonar o pote de ouro.
«Ah, és tu, puto! - O que é isto?
- É o Pote de Ouro! Encontrei-o!
- Ah, tu agora já podes comprar todos os brinquedos que quiseres... não é?!
- Não, é para ti!»
O sem-abrigo pergunta-lhe porque deixa ele o pote todo ali se o que tinham combinado era metade para cada um. Carica responde: «- Parece que precisas mais dele do que eu».
Carica despede-se e arranca avidamente de regresso a casa, onde é recebido por um forte abraço do avô.
«- Tive tantas saudades tuas, avô!
- Também nós, filho!»
É a vez de Carica contar uma história ao seu avô. A história da sua viagem até ao outro lado do arco-íris.


A Estrela, de António Duarte foi uma outra curta metragem que passou hoje no programa Onda Curta da RTP 2.

«Roubaram-me a estrela!
A mais linda, a que eu mais gostava. As estrelas guiam-nos, fazem-nos sonhar. As estrelas fazem falta.
- E as estrelas têm dono?
- Devem ter: as pessoas.
- A estrela é de todos.
E vinha
a cada coisa procurava sempre o que não tinha
Procura sempre o nome verdadeiro das coisas.»

E por fim, o Pedro pode tocar na estrela mágica e todos a podem apreciar também...

domingo, dezembro 23, 2007

Cambiantes da Quadra Natalícia

Ia passar o primeiro Natal fora da sua casa, longe da família que tinha criado... O Natal dos postais e dos filmes tem neve, casas com lareiras, pinheiros iluminados, euforia, alegria.
Por aqui, num serviço de internamento de um hospital a quadra Natalícia não é feliz! Há ansiedade e angústia. É um tempo feito de oscilações. É tempo de dor enraizada na pele do sentir; é tempo a avivar dias passados; é tempo que se cruza com a batalha de confronto com as limitações de agora e de descobrir na consciência querer viver... mais... muito mais...; é tempo em que se fica nalguns medos e remorsos trazidos pelo filme da vida.
Mas ainda assim, há o brilho das pequenas coisas; há as barreiras humanas que se desvanecem, há o toque de humanidade com humanidade; há os olhares que se detém de uns e de outros; há a possibilidade de nos envolvermos; há os sorrisos encorajadores...

sábado, dezembro 22, 2007

O Lado Esquerdo

Ontem escutava uma pessoa de quem gosto com atenção, pressentia aquilo que me contava, mas não encontrava as palavas certas, sentidas...
O lado esquerdo mostra-nos tanto e coisas tão diferentes, que ás vezes, com tamanha simplicidade nos mostra o avesso, e aí tudo parece ficar inaudível em nós e nos outros.
As palavras de ontem talvez sejam estas: "Sim, porque é preciso querer muito, lutar muito, esquecer, não querer ver e até perdoar sem dizer, para que a promessa de amor para sempre se cumpra."

sexta-feira, dezembro 21, 2007

"A Vida Portuguesa"


Esta semana foi uma semana cheia: de passeios, de estar com quem gosto, de estar com quem já não via há muito tempo, de ficar encharcada em dias invernais, de a seguir beber bebidas quentes: chás e chocolates, de tentativas de compras, de leituras, de trabalho. Parece que coube tanto tempo dentro dela... houvesse ainda mais horas para as encaixar umas dentro das outras e perder-me nelas, como matrioskas...
Na Baixa Chiado, num fim de tarde de chuva miudinha descobri esta loja, por acaso, e gostei: são as coisas que lá se vendem, é o cheiro a outro tempo, é o espaço pitoresco com vida...

Não acontece... não acontece tanta coisa que poderia acontecer...

Foi enriquecedor ter conhecido e ouvido as histórias da Amália Cascais, educadora de infância há 40 anos. Contava-nos uma história pessoal muito engraçada quando se discutia a guerra dos sexos: "Sabem, o meu marido sempre estendeu muito melhor a roupa do que eu... Claro que para a minha sogra (há muitos anos atrás) era uma vergonha: Onde é que já se viu! O que é que as pessoas vão dizer ao ver-te a estender a roupa na varanda? Mas eu nunca me importei com isso. Reconheço que o meu marido é muito melhor a fazer isto do que eu, é mais organizado, é capaz de estender as meias pelas cores, primeiro as amarelas, depois as verdes, depois noutra fila as azuis... Eu não sei fazer tão bem quanto ele faz. E hoje em dia, isso é uma tarefa dele... nem sequer me preocupo com isso."
Fez-me lembrar ainda do Sr.º Jorge, professor de shiatsu na água, casado com uma coreógrafa, a Rita. Conheci-os a ambos, embora tivesse tido conversas mais privilegiadas com o Jorge: "Sabes, lá em casa inverti os papéis, não deixo a Rita lavar o chão, nem cozinhar, nem fazer esse tipo de tarefas mais domésticas. A Rita tem de fazer aquilo que lhe dá uma maior liberdade de movimentos, suaves, flutuantes. Esse tipo de coisas quero mesmo ser eu a fazê-las."
Depois a Susana, educadora de infância há três anos, na sua timidez, a dar tanto e eu a aprender tanto com ela... Dizia assim: "as crianças não sabem que uma letra com outra letra se lê, e que com muitas letras se lêem frases. A criança sabe ler pessoas. E, é na rotina que se constroem afectos. As rotinas tornam-se em momentos de qualidade quando o tempo é das crianças. É um bom fio condutor de segurança, de oportunidade para se descobrir a interacção. São momentos privilegiados de interacção, quando assentes numa relação individualizada em que se verifica a continuidade da atitude pelo adulto."
Depois, há ainda, a história raríssima do Eduardo Sá: "mas há, entre as crianças, quem sinta tão mais fundo (de forma tão inocente e tão mais forte) que se torna intrigante a intensidade com que nos trespassam, quando procuram (no seu) o nosso olhar. Na verdade, são crianças - raríssimas! - para quem, em relação a cada sonho, amanhã pode ser, talvez, longe demais. Interpelam, com delicadeza, os nossos gestos. E esperam, ardentemente, que possamos ir além da complacência e da falsidade. [...] Há, entre as crianças, quem - ao ligar-nos aquilo que sentimos - tornam luminosa a indiferença e, esperando gestos de verdade, nos tornam... raríssimos. (O seu olhar,interpelante, demonstra que nada resulta quando não há quem creia em nós, nem quando aquilo em que se acredita é pouco mais que quase nada).

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Nas lembranças irrepetíveis...

Ás vezes, os dias revelam-se em recortes, de ciclos, daquilo que fomos e daquilo que os outros foram para nós... Como se fosse possível nos dias caberem recortes de outros dias feitos de outro tempo, de outras linguagens, de outros sentimentos...
Uma lembrança imaginada, suave recortada na combinação de uma ida a Sesimbra amanhã: uma casa à beira-mar, com livros espalhados pelo chão, onde se sorvem silêncios...
Uma lembrança introspectiva recortada quando, por acaso, numa livraria, agarrei num livro e no abrir de uma página, ao calhas, leio: «Quem veste de preto não precisa de se fazer o interessante com outras cores; basta-lhe a personalidade. (...) O preto é a cor da individualidade. (...) O preto concentra no rosto, centro da individualidade, a sensação que uma pessoa produz». (A Psicologia das Cores - Como actuam as cores sobre os sentimentos e a razão)
Uma lembrança nostálgica e melancólica recortada por um café num fim de tarde de Inverno, com gotas de chuva a caírem lá fora, num sítio caracterizado pelo estilo "pseudo-intelectual"...

... "olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti, quero estar onde estiver a tua sombra, se lá é que estiverem os teus olhos". (Rodapé, n.º 3)

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Conversas biomédicas/holísticas

Era hora de almoço. Em vez de estar a almoçar, conversava com um médico sobre um doente. Uma conversa inicialmente renitente, depois de quem não acredita muito naquilo que ouve, mas ainda assim se dispõe à condescendência do benefício da dúvida. Por fim e após constatação dos factos baseados na evidência, atiro a minha opinião, que sabia que ia ser escutada.
Em tom de conclusão, remata o médico:- "Isso cheira-me a muita filosofia em enfermagem e a Florence Nightingale!"Sem me atraver agora a partilhar tal pensamento, disse de mim para mim mesma: Ainda bem, se é capaz de estabelecer este parelelismo é bom, como o cheiro a jasmim, doce;)
A necessidade da intervenção que resolvi propor para este doente foi reiterada pelo médico. E, uma sensação de que há conversas biomédicas holísticas que, se à primeira instância parecem pouco válidas, vale sempre a pena tentar tudo...

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Control

http://www.youtube.com/watch?v=qrFKu3xwTlQ

Um dos melhores filmes destes últimos tempos: control

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Pelo olhar fotográfico do Paulo

O Paulo gosta muito de fotografia. Também gosta muito de livros e de música. Para além, de também gostar da sua profissão.
Hoje, no jantar, lá estava ele: de objectiva na mão, pronto a captar "aquele" momento, para no seguinte instante disparar...
Não me admira que goste de fotografia. A fotografia combina com ele.
A fotografia estende a beleza e a veracidade das coisas, da realidade.

«O que é correcto para a fotografia é correcto para o mundo visto fotograficamente. (...) O fotógrafo, quer queira quer não, está comprometido com a tarefa de envelhecer a realidade, e as fotografias são elas mesmas antiguidades instântaneas. A fotografia (...) para dar profundidade ao carácter histórico de uma paisagem, para tornar a natureza sugestiva-sugestiva do passado.
A contigência da fotografia confirma que tudo é perecível; a arbitrariedade do testemunho fotográfico mostra que a realidade é fundamentalmente inclassificável. A realidade resume-se a um conjunto de fragmentos casuais - uma maneira infinitamente sedutora e incisivamente redutora de lidar com o mundo. Ao ilustrar essa relação, em parte exultante e em parte condescendente, com a realidade (...), a insistência do fotógrafo em que tudo é real implica também que o real não é suficiente. (...) Como se apenas por olhar a realidade como um objecto - mediante a fixação da fotografia - esta se tornasse realmente real, ou seja, surreal.»
Susan Sontag, On Photografhy

Pelo olhar fotográfico do Paulo,
em www.olhares.com/faial

terça-feira, dezembro 11, 2007

Caminhando... pelas emoções (parte II)

« - O que estou a fazer agora (...) é desligar-me a mim próprio da experiência.
(...)
Sabes o que dizem os Budistas? Não te apegues às coisas, pois tudo é impermanente.
Mas , espera, disse eu. Não estás sempre a falar sobre expermientar a vida? Todas as emoções boas, assim como as más?
- Sim. (...) Mas o desapego não significa que não deixes a experiência penetrar em ti. Pelo contrário, deixa-a penetrar em ti totalmente. É assim que consegues largá-la. (...)
Pensa em qualquer emoção, a amor, ou desgosto por um ente amado, o medo e a dor de uma doença mortal. Se te prendes nas emoções, se não te permites vivê-las completamente, nunca podes desapegar-te, estás muito ocupado em ter medo. Tens medo da dor, tens medo do desgosto. Tens medo da vulnerabilidade que o amor implica.
"Mas, atirando-te a estas emoções, permitindo-te mergulhar nelas, completamente, até ao pescoço, mesmo, estás a vivê-las completa e totalmente. Sabes o que é a dor. Sabes o que é o amor. Sabes o que é o desgosto. E só depois poderás dizer "Está bem. Experimentei esta emoção. Reconheço esta emoção. Agora preciso de desapegar-me desta emoção por um momento." (...) Agora vou pôr essa emoção de lado, e saber que há outras emoções no mundo, e que as vou experimentar também"».

(in As Terças com Morrie)

lugares dentro de mim

Hoje estive num lugar em que tudo tem o ritmo certo. Gosto de tudo neste lugar, que sabe a abraço e a amizade! É um lugar no qual muitos desejos se espalharam pelo chão, e de onde se parte para outros sonhos, desejos, projectos. Há lugares assim, onde pousam tempos, histórias, estados de alma, combinações, emoções, hiatos com o passado, encontros, sonhos fundos com histórias dispersas, desencontros, entusiasmos empolgantes... Este é daqueles lugares que desenha uma âncora, que guardo... e tudo faz mais sentido!
É sempre bom voltar a este lugar e pessoas. No regresso, trazemos uma paz diferente, levamos pontos cintilantes em nós...

segunda-feira, dezembro 10, 2007

"Eternamente"

"sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncio, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma àrvore para olhar as estrelas, um caminho a meio de um olival por onde o luar pousaria à noite, abóbodas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas do tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. nada disto tu viste nada te contei, nada é teu. (...)
sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos, acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passearemos pela sombra da àrvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio de noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
e a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de setembro, com cheiro a algas e a iodo. e de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo poderia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares

Tensão entre os opostos

« - A vida é uma série de puxões para trás e para a frente. Queres fazer uma coisa, mas és obrigado a fazer outra coisa qualquer. Alguma coisa te magoa, e no entanto tu sabes que não devia. Tomas certas coisas como garantidas, mesmo quando sabes que não devias tomar nada por certo.
Uma tensão entre opostos, como um puxão numa tira de borracha. E a maior parte de nós, vive algures no meio.
Parece um torneio de luta, digo eu.
- Um torneio de luta. - ri-se. - Sim, podes descrever assim a vida.
Então, que lado ganha, pergunto eu?
(...)
- Ganha o amor. O amor ganha sempre.»

(Mitch & Morrie)

domingo, dezembro 09, 2007

Albergamos desconhecida!

"Reparei que o africano não tem, normalmente, a relação que eu tenho com uma casa (...). Ali por África não é assim: uma casa é de todos: é um entrar e sair constante: é os amigos e os primos que vêm não sei de onde e dormem por ali, em qualquer lugar."

Hoje, um telefonema de um amigo e um pedido: a não-sei-quem está no aeroporto, desesperada, preciso que a ajudem, já não conseguiu passagem para hoje, e não tem onde ficar...
- Cá em casa?! Até 4ªfeira?
E por que não?!
Uma experiência nova, nada comum, sem dúvida, albergar alguém totalmente desconhecido cá em casa por uns dias...

Caminhando...

«Cada memória traz a sua dor mas, com cada momento de dor, avançamos um passo em direcção ao desapego e ao recomeço...»

(in Viva a Vida!)

sábado, dezembro 08, 2007

Noites cheias

Num canto de noite balançámo-nos na música como folhas que ondulam ao desprenderem-se das árvores. fomos por dentro emoção. um formigueiro de entusiasmo feliz.
Noites em que «entre amigo e amigo/jamais se afastam/coisas tão felizes».

Um pouco de mim vem de noites assim, longas e cheias... de momentos e lugares que guardamos, intactos na memória.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

;(

Caminhando pela ponte, desabotoava-me daquilo que faz doer.
Sempre soube que não querias ter partido. Ainda e assim, nunca.
Nunca imaginei, nem nunca poderia imaginar que tivesse havido tamanho sofrimento. Fui capaz de o pressentir, contudo, daquela forma...
De cabeça cabisbaixa, entretida a pensar em ti, com o coração triste, passo sobre passo na ponte. E ao fundo, por acaso, no último degrau, a subir, na minha direcção, surge o Tiago com o seu sorriso calmo e olhar meigo. Um cumprimento e uma troca de palavras, sentidos. Sei que não pode ter sido coincidência. A lei da casualidade jamais condensa instantes destes: de reaconchego.
A certeza de que o céu tem a Baixa-Chiado da tua imaginação, por onde podes agora passear...

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Como uma roda que gira

O menino, olhando então para a sua mão, disse ao avô: «Vida e morte são como a palma e as costas da minha mão, não é?»

(Carol Gouveia e Melo)

terça-feira, dezembro 04, 2007

Sem título

Um fim de tarde princípio de noite, de um dia grande, curto, em que dei comigo a desejar um abraço e um baloiço...

Nas dobragens de uma folha e num simples rasgar de papel como é que Alguém pode saber tanto de emoções de lá de dentro de mim?

- O que é isso? - pensava ele em alto. Um olhar, o seu olhar mais atento: Aqui houve medo! Foi como um abanão que expôs a nudez de um sentir meu, inconsciente e desconhecido. A espreitar, o medo de me entender...

Na descoberta de pedaços de mim, com os ouvidos colados ao que a sua voz contava: "precisamos e temos de encontrar a ponta do novelo da pessoa..."
Senta-se com toda a sua postura de disponibilidade e de adequação exacta, e agora ainda um olhar mais demorado e misterioso. Vou sendo eu, aos poucos. Uma certa preocupação começa a tomar o lugar do medo, para depois, se transformar em definitivo numa questão de intregração sensorial...

Foi assim, uma espécie de conversa, onde couberam muitas coisas: os abraços que podemos inventar; a comprovação de que todos necessitamos de contacto físico para nos sentirmos bem; a convicção de que não somos pessoas insensíveis, somos sim, pessoas sensíveis e tentamos organizar aquilo que sentimos por que tudo o que nos rodeia nos afecta e nos influencia, por que há sempre qualquer coisa a olhar e a perceber; a partilha da ideia de olharmos para as pessoas não como uma entidade estática mas tentarmos compreender a Outra pessoa de uma forma dinâmica em espiral de auto-actualização; a necessidade que temos de nos organizar e de ir ter com aquilo que desejamos; o espaço que não temos para irmos ao encontro dos nossos próprios desejos, nas situações e contextos em que vivemos, nas cidades, que nos afastam mais do que do essencial; o facto de começarmos a organizar saberes que não compreendemos bem, estando cada vez mais, rodeados de coisas que não entendemos claramente e que estão muito afastadas de nós...

"Já abraçaste alguém hoje?" - começa o António Gonçalves por perguntar no início deste fim de tarde, com o seu modo de perguntar mais natural e descontraído do mundo e de quem leva os abraços, os baloiços e as brincadeiras espontâneas mesmo a sério, entre muitas outras coisas... Agradeço! Sempre o melhor de se receber...

domingo, dezembro 02, 2007

Assim, é assim...

E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira