Por este Bairro...
Por este Bairro conflui uma grande heterogeneidade de pessoas.
Cruzámo-nos há uns dias à mesma hora na mesma mercearia, esperando que pagasse para chegar a minha vez.
Gostei de o observar na sua maturidade e no ar de quem faz uma interrogação permanente à vida: mais de 35 e menos de 40 anos, dentro da sua camisa castanha por fora das suas calças esverdeadas em estilo freak condicente com o ar jovial num corpo alto e robusto, olhos cor de amêndoa e cabelo encaracolado castanho.
A experiência de o olhar a ser a experiência de um cruzar. Hoje em dia, as pessoas já não se cruzam, atravessam-se apenas e só.
Recordo-me também de, por mais que uma vez, sair de vela, e passar em frente à sua casa num quarteirão acima da minha, e as janelas da sala estarem escancaradas. Os lençóis pareciam acabados de estender num cordel improvisado. Estava de costas, a entrar pela janela enorme, para a sua sala. Da rua, contemplei a estante cheia de livros que atravessa toda a parede da sala e o chão, soalho de madeira flutuante.
Imaginei-o pintor, por estar sempre em casa à hora que as pessoas ou vão para o emprego ou vêm do trabalho.
Imaginei-o divorciado e com um cão quando reparei que na mercearia tinha comprado comer para cão.
Imaginei-o em vez de pintor, jornalista free lancer, depois de o imaginar divorciado: imagino que a leitura para Ele seja como uma amizade, que o esclarece melhor e que acrescenta conhecimento.
Gostei de o olhar e pensar naquilo que esconde!
