sexta-feira, junho 20, 2008

Por este Bairro...

Por este Bairro conflui uma grande heterogeneidade de pessoas.
Cruzámo-nos há uns dias à mesma hora na mesma mercearia, esperando que pagasse para chegar a minha vez.
Gostei de o observar na sua maturidade e no ar de quem faz uma interrogação permanente à vida: mais de 35 e menos de 40 anos, dentro da sua camisa castanha por fora das suas calças esverdeadas em estilo freak condicente com o ar jovial num corpo alto e robusto, olhos cor de amêndoa e cabelo encaracolado castanho.
A experiência de o olhar a ser a experiência de um cruzar. Hoje em dia, as pessoas já não se cruzam, atravessam-se apenas e só.
Recordo-me também de, por mais que uma vez, sair de vela, e passar em frente à sua casa num quarteirão acima da minha, e as janelas da sala estarem escancaradas. Os lençóis pareciam acabados de estender num cordel improvisado. Estava de costas, a entrar pela janela enorme, para a sua sala. Da rua, contemplei a estante cheia de livros que atravessa toda a parede da sala e o chão, soalho de madeira flutuante.
Imaginei-o pintor, por estar sempre em casa à hora que as pessoas ou vão para o emprego ou vêm do trabalho.
Imaginei-o divorciado e com um cão quando reparei que na mercearia tinha comprado comer para cão.
Imaginei-o em vez de pintor, jornalista free lancer, depois de o imaginar divorciado: imagino que a leitura para Ele seja como uma amizade, que o esclarece melhor e que acrescenta conhecimento.
Gostei de o olhar e pensar naquilo que esconde!

sábado, junho 14, 2008

Os teus lábios parados eram a noite, o abismo
e o silêncio das ondas paradas de encontro ás
rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos meus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.

(Lisboa, Abril de 2003)

José Luís Peixoto
in Gaveta de Papéis

Fotografia

As ruas,
as tardes, as noites, as madrugadas, o nascer do dia.

... por um momento.

Os risos. A voz delicada.
Ar que é respirado...

Entendimento encontrado: saber o essencial, inventar tudo o resto... tanto, pequenas coisas.

Baloiço do sentir
suavidade do toque
na ponta dos dedos
um abraço
um chão
um tempo
um sonho que não existe na memória

Milímetros que são caminho de distância sem fim

José Saramago

Os passos da morte que vem
os passos da vida que vai
são passos que soam iguais
que vão para sempre
e não se ouvirão mais

segunda-feira, junho 09, 2008

Flashback

Depois do que magoa
um dia assim, de vazio
andar de um lado para o outro
a dizer uma coisa qualquer de mim para mim própria.
ir-me embora.
voltar a repetir: vontade de me ir embora.
descer o elevador o mais rápido possível.
observar o fecho electrónico do carro com dois sinais de luzes
seguir numa qualquer direcção
sem uma única ideia na cabeça, sem destino, sem mais nada para além de uma pressa.
esquecer-me de nomes.
comer sozinha sem olhar para ninguém.
acelerar de novo, vazia, segurando o volante.
tudo a parecer pequeno, inútil, estranho

Memória
ás vezes, a vida suspensa; outras, a avançar em elipses.
através da memória, a possibilidade de se fazer zoom ao pormenor de um qualquer acontecimento
a procura de um espaço tão amplo quanto a distância do tempo.
as experiências do passado gastas e cristalizadas a romperem em explosão em clima de ebulição.
a memória como sopro de recordações daquilo que já foi estória, de outrora.

Escrita
diz-se que para ser um bom escritor é preciso acreditar nas palavras e no poder da imaginação. seduz-me a ideia de usar a escrita como um meio de chegar a novos horizontes, matutando, dissecando, encontrando novos ângulos acerca do mundo.

Trampolim
balanço que dá balanço para nos fazer voar para “a next big thing”.

Noite
“não estou pensando em nada e isso é-me agradável como o ar da noite” (Álvaro de Campos).
a noite, altura do dia em que se chega mais depressa ao infinito, em que se enchem espaços de dentro, em que se relembram momentos que ecoam por muitos lugares e situações.
onde acontecem conversas sem fim.

Amor
uma imagem, uma forma: perfeição
uma recordação presente de um Tu intensa
um semblante que não se explica
o mundo todo alojado num Tu
um rosto que se contempla por ser um rosto que recorta o essencial que existe
olhar um sorrir do qual se tem a certeza de que se gosta
vontade de a um Tu poder dar um beijo a meio de uma frase
quando a Ti te vejo é tudo simples,
pensar num abraço: "abraça-me bem"...

Momento
vertingem
porquê aquele momento e não outro?
porque é que naquele ápice não tenho dúvidas?
todos os livros que li.
todo o tempo fascinada que dediquei a uma imagem.
os motivos inexplicáveis que me fizeram escolher determinada coisa em detrimento de outra.
maneiras que me prepararam para olhar-Te.
meios para contemplar melhor.
frases, imagens, fragmentos, vestígios que transporto.
até que de repente te vi.
um princípio
um fim – é esquisito haver fim.
um olhar entrecortado por sombras e luz.
aquilo que eram palavras, imagens, ou outra coisa qualquer tão ténue, que não consigo descrever, a ganhar forma, uma aparência sensível e intensa.
entrega do peso do coração na pele de um Tu, habitado por um rosto e corpo...

Excitação
o futuro a parecer instalar-se nos momentos que passam.

Compromisso
caminhar com segurança mas deixar também transparecer fragilidade.

Pensando na subjectividade dos sentimentos

"Era uma vez um camponês gordo e feio que se tinha apaixonado (porque não?)por uma princesa bonita e loira...Um dia, a princesa - vá-se lá saber porquê - deu um beijo ao camponês gordo e feio...E, magicamente, este transformou-se num príncipe esbelto e ataviado. (Pelo menos era assim que ela o via...) (Pelo menos era assim que ele se sentia...)".

Jorge Bucay

Freud explica...

Mãe:
que me dizes que gostavas que passasse e estivesse mais tempo em casa
que achas que saio, muitas vezes, em demasia

«Curiosamente, segundo Freud, a "neurose obcessiva" que caracteriza algumas mulheres vivendo na solidão da sua domesticidade, traduz-se numa luta contra a angústia através de procedimentos ritualizados semelhantes, de execução repetitiva ou quotidiana, como os rituais de lavagem e limpeza da casa».

In Nos Rastos da solidão

domingo, junho 08, 2008

Sei que muda, que é diferente...

Respira-se fundo. Não sei nada ainda do que sou, aqui.
Os medos calados por dentro.