quarta-feira, janeiro 24, 2007

Sombra Negra

« (...) Com os olhos abertos até parecerem duas luas cheias, iluminou com o medo a escuridão da noite (...). Sem grande precisão sentiu o cheiro da morte. (...) atravessando o imenso deserto do seu próprio medo sem nunca o atravessar pois que era inultrapassável, apressando-se por chegar ao sítio impossível de chegar (...), sentiu o príncipio da perseguição. Era a morte. Sem pressas também, atravessando tudo o que ele atravessava ou muito mais, mesmo atrás dele, a morte insistia em levá-lo naquela noite. "Para aonde", pensou, admitindo a hipótese de ser apanhado como uma certeza inabalável e concretamente próxima. "Para aonde?" Num ápice molhado (...) pensou na resposta mais adequada: "Para o mesmo sítio onde levou durante o passado todo, os mortos que decidiu levar!" (...) atravessando a impossível travessia daquela noite e, esgueirando-se nela, na noite (...) e nele, no seu medo, e nele, no seu mundo, foi caminhando sempre para aquele qualquer lado indefenido quanto pouco encontrável e, (...) sentiu-a cada vez mais nítida, cada vez mais vencedora de um combate tão unilateral que transformava os adversários da morte em insignificantes e rídiculos bonifrates da realidade concreta de todos os homens. Quando o medo diminuiu a sua intensidade, ainda quando chovia da mesma maneira bruta e afogadora que havia de chover durante a noite toda que ele não haveria de atravessar, chegou a parar (...). como se fosse possível matar a morte, ou pelo menos afugentá-la, (...), sem fechar os olhos, sem pensar em mais nada a não ser no intenso e cemiterioso cheiro da morte que cada vez se entranhava mais não só nas suas narinas como também na sua própria vida (...). Decidiu nesse momento não pensar nela, como se não a matando, (...) a pudesse no mínimo agredir com uma ausência no seu pensamento. Constatou, com lágrimas nos olhos, embora não as pudesse sentir porque o céu lhe fornecia a todo o momento muitas mais lágrimas do que todas aquelas que teria podido produzir ao longo de duas existências, constatou que, chegada a hora do encontro, a morte não perdoa - ela diverte-se se está bem disposta, é bruta se está menos bem-disposta, é sádica e rápida se está indisposta. Nesse mar de constatações instantâneas descobriu que a morte, chegada a hora do encontro, não permite que um homem se esqueça dela, chegando esse homem a crer empiricamente que a hora da sua morte acontece momentos antes de acontecer verdadeiramente. Rendeu-se à noite. Ao mundo das infinitas lágrimas que não eram dele e que, (...), eram mais dele do que de ninguém; rendeu-se aos cheiros múltiplos indecifráveis que a morte arrasta ao longo da sua caminhada, rendeu-se à falta de ar que ia tomando conta da sua calma treinada (...). O desespero, a inconstância de lucidez e o pânico profundo tomaram conta dele. Não que sentisse chegado o momento em si, mas precisamente a tortura de que todos os antecedentes se apresentavam ceriminiosamente a ele, precedendo a tão temida morte e, numa fila interminável e sádica, não aceleravam aquela ante-estreia, agonizando-o com a expectativa de a qualquer momento apresentá-la, sem no entanto abreviarem esse contacto inevitável, eficazmente mortífero. Sentiu ao longo das costas uma presença maciça (...). Era toda a sua repentina solidão, todo o seu pavor de ser forçosamente levado para o sítio desconhecido. (...) e tendo consciência do tempo que lhe escorria pela vida. (...) que testemunhou a grande e toda sua dor, naquela noite de chuva aterradora e cúmplice dos banquetes da morte. (...) identificado com o contacto maternal a última coisa que sentiria concretamete neste mundo, esse mesmo contacto com que se inicia a vida e que, por alguma razão, é o contacto ilusório que os homens criam nos últimos momentos de vida, pôs-se, como todos a visitar o passado. Em lembranças dolorosas, em teleportações tão reais e comovidas que a morte sentiu dificuldade em persegui-lo, chegando mesmo a pensar que ele se estava a servir do passado e das emoções para tentar escapar a ela, em episódios pequenos e curiosos que só a ele diziam íntimo respeito, em sorrisos nervosos no meio da escuridão chuvosa daquela noite tremenda, em espasmos espaçados, em tremuras não tão espaçadas assim, em terrores de volta à realidade, que era a dele, esculpiu na alma duas lágrimas, uma para cada olho, tão genuínas que não só se distinguiram nitidamente das infinitas lágrimas que o céu mandava, como chegaram pela primeira vez neste e no outro mundo, a comover a própria morte!... A melodia da morte agudizou-se, tornou-se fluída e bela, próxima e cativante. Num gesto de entrega ao que é inevitável, ao que não se pode iludir, ao que nem sequer é utópico (...) carregando consigo o seu passado bem revivido, as suas lembranças mais acesas do que nunca (...). seriam actores contratados para o ambulante circo da morte. com medo de se emocionar ao ponto de falhar, a morte apressou-se em levá-lo. Soube aceitar que também ela, a morte, a maior das portas, se sentira comovida com a força do seu coração, com o poder místico, corrosivo e mortífero das suas lágrimas, e chorando com o homem, num acto que nunca se percebeu se terá sido um encontro, ou uma despedida, ou um lamento, ou um desencontro, ou um toque de duas grandezas, ou o estrear de uma situação cósmica absolutamente nova, nesse acto indefenível, a morte, chorosa, emocionada, quase arrependida, perguntou ao homem o que fazia a sua alma, o seu coração e a sua presença (...). A morte, paciente, curiosa, esperou um pouco por ele e, olhando os seus olhos, desejou com todo o seu poder de morte que a resposta nascesse na boca do humano, que brotasse lá do seu âmago, lá do seu mundo intactamente puro, lá da matéria que revestia o seu coração, e aniquilasse naquele momento ainda nocturnamente chuvoso todas as possibilidades de ela o levar dali para si. E desejou com todo o seu poder de morte que lá do epicentro do seu ser, o homem descobrisse um momento que pudesse contrariar e vencer o momento que ele estava a provocar, para que ela, a morte, chorando, sofrendo e gaguejando ao mesmo tempo, não tivesse que o levar, a ele e aos seus dois enormes olhos de lua cheia que, na intensa magia do momento, unidos à noite, à chuva, ás recordações, à própria morte, estavam tão delicadamente húmidos que pareciam vindos do fundo do maior dos oceanos, sem nunca terem sido enxugados».

(Ondjaki, in Momentos de aqui)

sábado, janeiro 20, 2007

Breaking and Entering [Assalto e Intromissão]

Um filme que deve ser visto.
Um filme que nos faz reflectir sobre diversas temáticas e que nos permite perspectivar muitos assuntos e muitas opiniões sobre diferentes prismas, onde quase, quase tudo se (des)equilibra momentaneamente como numa dança de trapézio.
Um xadrez emocional não dissociável de uma relação intrincada com a verdade... Um filme onde é possível encontrar muitos parelelismos com a nossa vida comezinha...
E um filme que ainda me fez lembrar daquilo que Eduardo Sá ou o Prof. Nabais diria de Miro: um jovem perigoso ou um jovem em perigo? e onde a Bea me recordou a personagem do livro "O Estranho Caso do cão morto": «no dia seguinte, vi quatro carros amarelos quando ia a caminho da escola, o que fez com que o dia fosse um dia negro , por isso não comi nada ao almoço (...)»

quinta-feira, janeiro 11, 2007

A propósito de uma conversa com e sobre palavrões...

O Poder Libertador Do Palavrão
Miguel Esteves Cardoso

«Já me estão a cansar... parem lá com a mania de que digo muitos palavrões, caralho! Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar... mas dialogar com carácter! O que se não deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto, quando bem aplicado é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária! Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar. Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante. Dizer "Tenho uma verruga no caralho" é inadmissível.
No entanto, dizer que a nova decoração adoptada para a CBR 900 '2000 não lembra ao "caralho", não mete nojo a ninguém. Cada vez que um palavrão é utilizado fora do seu contexto concreto e significado, é como se fosse reabilitado. Dar nova vida aos palavrões, libertando-os dos constrangimentos estritamente sexuais ou orgânicos que os sufocam, é simplesmente um exercício de libertação. Quando uma esferográfica não escreve num exame de Estruturas "ah a grande puta... não escreve!", desagrava-se a mulher que se prostitui. Em Portugal é muito raro usarem-se os palavrões literalmente. É saudável. Entre amigos, a exortação "Não sejas conas", significa que o parceiro pode não jogar um caralho de GT2. Nada tem a ver com o calão utilizado para "vulva", palavra horrenda, que se evita a todo o custo nas conversas diárias. Pessoalmente, gosto da expressão "É fodido..." dito com satisfação ate parece que liberta a alma! Do mesmo modo, quando dizemos "Foda-se!", é raro que a entidade que nos provocou a imprecação seja passível de ser sexualmente assaltada.
Por ex.: quando o Mário Transalpino descia os 8 andares para ir à garagem buscar a moto e verificava que se tinha esquecido de trazer as chaves... "Foda-se!!" não existe nada no vocabulário que dê tanta paz ao espírito como um tranquilo "Foda-se...!!". O léxico tem destas coisas, é erudito mas não liberta. Os palavrões supostamente menos pesados como "chiça" e "porra", escandalizam-me. São violentos. Enquanto um pai, ao não conseguir montar um avião da Lego para o filho, pode suspirar após três quartos de hora, "ai o caralho...", sem que daí venha grande mal à família, um "chiça", sibilino e cheio, pode instalar o terror. Quando o mesmo pai, recém-chegado do Kit-Market ou do Aki, perde uma peça para a armação do estendal de roupa e se põe, de rabo para o ar, a perguntar "onde e que se meteu a puta da porca...?", esta a dignificar tanto as putas como as porcas, como as que acumulam as duas qualidades. Se há palavras realmente repugnantes, são as decentes como "vagina", "prepúcio", "glande", "vulva" e "escroto". São palavrões precisamente porque são demasiadamente inequívocos... para dizer que uma localidade fica fora de mão, não se pode dizer que "fica na vagina da mãe" ou "no ânus de Judas". Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como "fellatio" e "cunnilingus"? Tira a vontade a qualquer um!
Da mesma maneira, "masturbação" é pesado e maçudo, prestando-se pouco ao diálogo, enquanto o equivalente popular "esgalhar um pessegueiro", com a ressonância inocente que tem, de uma treta que se faz com o punho, é agradavelmente infantil. Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso.»
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Foda-se (adaptado)
Millôr Fernandes

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Liberta-me.
"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"
O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor aideia de muita quantidade que "comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem.
O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto.
Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência.
Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?
Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão demaior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E asua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?
Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti amandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas "Já me fodi!"
Então:
Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e foda-se!!!
mas não desespere:
Este país … ainda vai ser "um país do caralho!"
Atente no que lhe digo!
Textos emprestados de [enfermeirosparasempre]

Do outro lado...

«Sentaram-se junto à janela e admiraram a paisagem serena oferecida pelo recinto do Hospital Curry Cabral (...), os pavilhões baixos das enfermarias, com os seus telhados cor de tijolo, destacavam-se por entre as árvores nuas, as copas despidas pelo Inverno; homens de roupão cirandavam com vagar, sem destino, aparentavam ser os doentes; outros, de bata branca, médicos sem dúvida, apressavam-se a entrar e sair dos pavilhões; um deles abandonava um carro que acabara de estacionar, outro estacara debaixo de um vigoroso carvalho e consultava o relógio.»
In "O Códex 632", José Rodrigues dos Santos
fez-me lembrar e recordar o nosso estágio de 2º ano, na nossa medicina;)

domingo, janeiro 07, 2007

De mãos dadas...

Sinto-me privilegiada por poder assistir a Marta a crescer e poder fazer parte da sua infância feliz.
Na criança feliz que ela é e na minha maturidade revejo também as recordações da minha infância, através das quais se viaja por outros olhares. A sinceridade espelhada nos sorrisos, nas lágrimas, nos gestos e nas (poucas) palavras é o quanto basta para um entendimento perfeito. O colo é abrigo para qualquer momento; os brinquedos são a melhor companhia; os vizinhos da mesma idade com quem se brinca horas a fio na rua são os amigos para sempre.
Com a Marta como açúcar com canela que ela entorna para um guardanapo de papel e pede para eu provar, mesmo quando lhe tento explicar que o açúcar e canela se devem é colocar sobre os pastéis de Belém. Mas o que é que isso adianta? Se eu quero que ela prove os Pastéis de Belém, ela tem o direito de querer que eu prove o açúcar com canela (simplesmente)…
Com a Marta reaaprendo a contar histórias, a ser expressiva. Com a Marta aprendo que a riqueza do imaginário das crianças é o tecto onde navegam sonhos de embalar, que as simples descobertas que faz no dia-a-dia são as verdades com as quais os adultos aprendem coisas importantes e complexas; que o triciclo é o meio de transporte preferido, capaz de levar qualquer um a qualquer lado pelo o universo inteiro…
E com a Marta, talvez aprenda o mais importante: a inocência de qualquer criança é a forma mais espontânea de inteligência [inteligente] …

2007

Desejos: 12
Sonhos: Muitos
Dias cheios: de saúde, , de sol, de chuva, de vento, de música, de combinações com amigos de sempre, de mar, de campos infinitos, de lua cheia, de noites, de madrugadas, de manhãs, de fins do dia, de histórias, de gestos, de sorrisos, de gargalhadas, de tempo para os outros, de tempo roubado ao tempo, de vontades, das pequenas coisas que nos fazem ser nós, de abraços cruzados, de palavras que te quero confiar...
ao teu lado, lado a lado contigo, de mãos dadas
a percorrer um caminho desejado,
caminho que é viagem
e viagem que somos nós,
juntos...
crescer contigo
respirar fundo como se o mundo nos envolvesse de um trago só,
de coisas boas, de coisas simples e de coisas felizes
de projectos, de aventuras, de partilhas de momentos da vida, de pedaços eternos, mágicos...
...
FELIZ ANO NOVO ;)

NATAL

«Oiço os mais antigos falarem que o natal no seu tempo era diferente, deixavam as meias na chaminé, era tudo ensaiado para convencer as crianças que o pai natal chegaria naquela noite mágica, em que descia pela chaminé e deixava os tão ansiados presentes... uma ilusão que eu prefiro manter, não neste cenário infantil mas no cenário da vida, em que as coisas podem acontecer se perseguimos um sonho...» (Hugo Gil Cortes, Jornal Ecos, Janeiro 2007, p.3)
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O Natal, quando criança, era verdadeiramente excitante e vivido em puro êxtase. O Natal sempre me fez vibrar de contentamento e de alegria, preenchendo-me uma sensação de felicidade plena, indescritível.
As luzes na rua, a iluminação das lojas, as cores natalícias, o frio a inundar as ruas e as casas... a árvore de Natal que enfeitava com a minha mãe, as luzes e as bolas e as fitas coloridas com as quais queria vestir a árvore… A minha mãe a tentar convencer-me que já eram bolas e fitas e luzes a mais [naquele pinheiro natural lindíssimo da sala de jantar], na árvore de natal. – Chega João! Já está bem assim… E eu a dizer que não… insistindo em colocar tudo o que tinha à mão, como se a quantidade de bolas e de fitas e de luzes significasse o quão bonito e especial era o Natal... A minha mãe cheia de paciência a fazer a Árvore de Natal comigo. Lembro-me, ainda, de “suplicar” à minha mãe para desenhar um anjo, um sino e umas velas e recortá-los em papel metálico, brilhante e de várias cores, e espalhá-los pelas paredes lá de casa...
Depois, havia ainda a crença de que o Pai Natal sabia que eu me portava bem e, por isso, merecia os presentes que lhe pedia, através de uma carta que escrevia sempre com todo o cuidado: escolher um papel de carta e de natal e desenhar uma letra bem feita e bonita eram preocupações contempladas. Seguia-se então o pedido ao meu Pai para deixar a carta no correio, e restava a certeza de que o meu Pai a entregaria nos correios pois ele sabia o quão importante era aquela carta.
O chinelo castanho, sempre debaixo da chaminé, também era algo de que não abdicava.
Os preparativos concentravam-se em torno do jantar de Natal com a família e da ceia com os amigos dos meus pais (que são a parte da família que podemos escolher)!!!
Variadas pequeninas coisas iam aparecendo no chinelo durante a noite de natal: sempre muitos chocolates e muitas moedas. Acreditava, com convicção, de que esta era a forma preferida do Pai Natal me visitar, pois ele estava sempre muito ocupado com todas as prendas que tinha de entregar a tantas crianças e não podia ser de outro modo… E era simplesmente mágico!!!
No outro dia de manhã, no chinelo, estava sempre uma das minhas prendas preferidas (das primeiras da lista), geralmente a mais pequenina delas todas (que era aquela que o Pai Natal podia enviar através da chaminé)... e essa noite adormecia sempre muitas horas depois de ter ido para a cama e ficava a sonhar acordada comigo a brincar com a prenda que sabia que iria receber no dia seguinte...
Anos mais tarde, a tradição repetia-se, já sabendo no entanto mais e outras coisas sobre o Pai Natal! A Missa do Galo passou a aconchegar o Natal e a ser ponto de encontro de familiares, com aquela fogueira enorme, em frente à Igreja de São Francisco, a aquecer corações nesta noite tão especial.
Chegou ainda a vez de me vestir de Pai Natal para ver o sorriso estampado no rosto de uma criança…


Este Natal foi diferente...
Apesar da árvore de natal, faltaram os presentes a cobrirem a base da árvore e o chão em redor. Apesar do prato principal do jantar ter sido bacalhau e dos variados doces como sobremesas faltou o cheiro delicioso da comida e dos doces a serem cozinhados pela minha mãe...
Apesar de ter sido meia-noite, faltou a excitação de me aperceber que era quase meia noite e faltou essa excitação a aumentar - a hora à qual religiosamente costumo abrir todos os presentes...
Apesar das prendas que tão carinhosamente recebi e dos embrulhos que rasguei faltaram os papéis e sacos espalhados pelo chão da sala e os bocadinhos de papéis por baixo dos pés com a fita-cola a agarrarem-se às solas dos sapatos…
Faltou ainda o estar sentada no sofá à lareira, a saborear as prendas e a deleitar-me com a noite de Natal na companhia dos meus pais e mostrar-lhes cada prenda e observar, com um olhar de menina, se gostaram da(s) prenda(s) que lhes oferecera...
Senti ainda a privação do sono e senti a falta de me poder ir deitar quando o sono já pesava demasiadamente sobre o corpo e de poder arrastar-me com sonolência para a cama a sentir-me criança e descobrir partes dessa criança em mim e perder-me nessas descobertas…


Este ano, o Natal foi uma época diferente... Diria talvez um pedacinho triste, pelos doentes que vi enroscarem-se nos lençóis frios do hospital, por aqueles que se sentiram abandonados na noite e dia de Natal, pelos doentes que adormeceram com os telemovéis junto a si sem receberem um telefonema, encontrando-se à mercê de si próprios, numa época que pertence à união das pessoas que são significativas umas para as outras e que para muitos não passou de um dia igual a todos os outros, um dia pautado pela escuridão versus luz, pelas diferentes horas das refeições, pelos vários horários da medicação, pelos passos de enfermeiras nos corredores (ora mais apressados ora mais calmos). Por isso foi um Natal diferente, um Natal em que muitos destes doentes ainda assim sorriam, ao mesmo tempo que choravam para dentro, em silêncio...