«Oiço os mais antigos falarem que o natal no seu tempo era diferente, deixavam as meias na chaminé, era tudo ensaiado para convencer as crianças que o pai natal chegaria naquela noite mágica, em que descia pela chaminé e deixava os tão ansiados presentes... uma ilusão que eu prefiro manter, não neste cenário infantil mas no cenário da vida, em que as coisas podem acontecer se perseguimos um sonho...» (Hugo Gil Cortes, Jornal Ecos, Janeiro 2007, p.3)
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O Natal, quando criança, era verdadeiramente excitante e vivido em puro êxtase. O Natal sempre me fez vibrar de contentamento e de alegria, preenchendo-me uma sensação de felicidade plena, indescritível.
As luzes na rua, a iluminação das lojas, as cores natalícias, o frio a inundar as ruas e as casas... a árvore de Natal que enfeitava com a minha mãe, as luzes e as bolas e as fitas coloridas com as quais queria vestir a árvore… A minha mãe a tentar convencer-me que já eram bolas e fitas e luzes a mais [naquele pinheiro natural lindíssimo da sala de jantar], na árvore de natal. – Chega João! Já está bem assim… E eu a dizer que não… insistindo em colocar tudo o que tinha à mão, como se a quantidade de bolas e de fitas e de luzes significasse o quão bonito e especial era o Natal... A minha mãe cheia de paciência a fazer a Árvore de Natal comigo. Lembro-me, ainda, de “suplicar” à minha mãe para desenhar um anjo, um sino e umas velas e recortá-los em papel metálico, brilhante e de várias cores, e espalhá-los pelas paredes lá de casa...
Depois, havia ainda a crença de que o Pai Natal sabia que eu me portava bem e, por isso, merecia os presentes que lhe pedia, através de uma carta que escrevia sempre com todo o cuidado: escolher um papel de carta e de natal e desenhar uma letra bem feita e bonita eram preocupações contempladas. Seguia-se então o pedido ao meu Pai para deixar a carta no correio, e restava a certeza de que o meu Pai a entregaria nos correios pois ele sabia o quão importante era aquela carta.
O chinelo castanho, sempre debaixo da chaminé, também era algo de que não abdicava.
Os preparativos concentravam-se em torno do jantar de Natal com a família e da ceia com os amigos dos meus pais (que são a parte da família que podemos escolher)!!!
Variadas pequeninas coisas iam aparecendo no chinelo durante a noite de natal: sempre muitos chocolates e muitas moedas. Acreditava, com convicção, de que esta era a forma preferida do Pai Natal me visitar, pois ele estava sempre muito ocupado com todas as prendas que tinha de entregar a tantas crianças e não podia ser de outro modo… E era simplesmente mágico!!!
No outro dia de manhã, no chinelo, estava sempre uma das minhas prendas preferidas (das primeiras da lista), geralmente a mais pequenina delas todas (que era aquela que o Pai Natal podia enviar através da chaminé)... e essa noite adormecia sempre muitas horas depois de ter ido para a cama e ficava a sonhar acordada comigo a brincar com a prenda que sabia que iria receber no dia seguinte...
Anos mais tarde, a tradição repetia-se, já sabendo no entanto mais e outras coisas sobre o Pai Natal! A Missa do Galo passou a aconchegar o Natal e a ser ponto de encontro de familiares, com aquela fogueira enorme, em frente à Igreja de São Francisco, a aquecer corações nesta noite tão especial.
Chegou ainda a vez de me vestir de Pai Natal para ver o sorriso estampado no rosto de uma criança…

Este Natal foi diferente...
Apesar da árvore de natal, faltaram os presentes a cobrirem a base da árvore e o chão em redor. Apesar do prato principal do jantar ter sido bacalhau e dos variados doces como sobremesas faltou o cheiro delicioso da comida e dos doces a serem cozinhados pela minha mãe...
Apesar de ter sido meia-noite, faltou a excitação de me aperceber que era quase meia noite e faltou essa excitação a aumentar - a hora à qual religiosamente costumo abrir todos os presentes...
Apesar das prendas que tão carinhosamente recebi e dos embrulhos que rasguei faltaram os papéis e sacos espalhados pelo chão da sala e os bocadinhos de papéis por baixo dos pés com a fita-cola a agarrarem-se às solas dos sapatos…
Faltou ainda o estar sentada no sofá à lareira, a saborear as prendas e a deleitar-me com a noite de Natal na companhia dos meus pais e mostrar-lhes cada prenda e observar, com um olhar de menina, se gostaram da(s) prenda(s) que lhes oferecera...
Senti ainda a privação do sono e senti a falta de me poder ir deitar quando o sono já pesava demasiadamente sobre o corpo e de poder arrastar-me com sonolência para a cama a sentir-me criança e descobrir partes dessa criança em mim e perder-me nessas descobertas…
Este ano, o Natal foi uma época diferente... Diria talvez um pedacinho triste, pelos doentes que vi enroscarem-se nos lençóis frios do hospital, por aqueles que se sentiram abandonados na noite e dia de Natal, pelos doentes que adormeceram com os telemovéis junto a si sem receberem um telefonema, encontrando-se à mercê de si próprios, numa época que pertence à união das pessoas que são significativas umas para as outras e que para muitos não passou de um dia igual a todos os outros, um dia pautado pela escuridão versus luz, pelas diferentes horas das refeições, pelos vários horários da medicação, pelos passos de enfermeiras nos corredores (ora mais apressados ora mais calmos). Por isso foi um Natal diferente, um Natal em que muitos destes doentes ainda assim sorriam, ao mesmo tempo que choravam para dentro, em silêncio...
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