quarta-feira, novembro 01, 2006

Olhares...

«Recomeçar corajosamente
O tamanho do hospital e as dependências do estranho edifício
as suas janelas
estradas interiores
rios brancos
caudais de gentes
surdez
impressão de sons ocos (…) agudos
Gritos localizados
gritos como golpes de lâminas
abertos
grito
cortes de lâmina
sangue verdadeiro vermelho
murmúrios e cheiros ácidos a cortarem por dentro do nariz
passos de corrida surdos brancos e invisíveis
ópera de lágrimas
só lágrimas
esbrasear lágrimas
dor insuportável
barba
olhos amassados de todas as cores
a pequena loucura visitante
gritos nasais de pessoas de idades ímpares
noite
fim de dores e orações
morfina irmã de morfeu e do sono, enfermeiros (…) travessia do estreito em Gibraltar
Na sua cama um enfermeiro
de branco,
de farda
de luvas
o desconforto perceptível (…) de ser lavada por este
Uma manhã com alguma dificuldade submergiu
atingiu a superfície angustiada a superfície azul da água
respirar cavado e febril de náufrago
aquelas palavras de olhos fechados entre cuspir e uma súplica
dor lancinante
cair tranquilo no abismo de uma letargia»

A morte.
A morte despersonalizada.
Apenas e mais um doente que morreu.
O enfermeiro que canta enquanto retira um cateter e limpa o sangue digerido vomitado e limpa o sangue que escorre dos orifícios, ao redor do doente, já morto.
Os cortinados corridos. Do lado de lá dos cortinados, os outros doentes, no mesmo espaço onde tudo se desenrola à sua volta.
A múmia. O doente dentro de um saco de plástico, com dois papéis presos ao pé por um elástico. Uma colcha por cima do saco de plástico. O transporte da maca com o doente morto a passar junto de enfermeiros que comem a sua refeição, para uma sala vazia, onde se guarda algum equipamento e onde o cadáver permanecerá durante horas.
Um Dr. Médico que abre a porta e que se assoma, com um ar descontraído, a falar num tom de voz alto, proferindo uma qualquer piada, sem fazer a miníma ideia do que aconteceu e do que está a acontecer.

As pessoas significativas. A família que não sabe da morte do seu familiar.
A privacidade que não existiu.
Um momento de despedida que não aconteceu.
Uma pausa, para que um momento difícil fosse de respeito e de dignidade, que ninguém achou necessária.

A palidez de uma enfermeira e o seu ar constrangido.

A chegada dos familiares.
Choro. Dor.
Um interno que se dirige aos familiares.
O enfermeiro, que há instantes cantava, ao lado dos familiares e do interno.

Eu, ali no meio, onde nada me pareceu fazer sentido.

2 Comments:

At 1/11/06 20:06, Anonymous Anónimo said...

Afecto.
Estranha palavra esta... Já reflectiste sobre o seu significado? Afecto vem de afectar e se vires com atenção a definição de afectar podes descobrir, lá perdido, o significado original (aquele que por vezes se perde e se altera ao longo dos tempos). Afectar quer dizer "alterar moral ou fisicamente; exercer influência sobre" e é disto que estamos a falar, não é?
A morte é apenas uma fase do ciclo vital, tal como o nascimento, o envelhecimento, etc. Porque te choca o facto de o Enfermeiro cantarolar enquanto presta cuidados ao cadaver daquele que foi um dos seus doentes? Não respondas já, ouve-me mais um pouco... A pergunta é só o pretexto... Qual a atitude desse Enfermeiro perante os doentes? Como eles o "afectam" quando ainda vivos? Será que a sua atitude perante o cadaver daquele que antes foi o seu doente mudou assim tanto?... Responde-me agora à pergunta inicial: "Porque te choca o facto de o Enfermeiro cantarolar enquanto presta cuidados ao cadaver daquele que foi um dos seus doentes?"
Não quero fazer juizos de valor, quero apenas abrir uma janela... Não será a capa do "distanciamento" em que nos envolvemos para "evitar sofrer com os doentes" apenas uma desculpa para camuflar a nossa indiferença? Será que o uso excessivo dessa capa não nos tornará insensiveis as necessidades dos outros?
Enfermagem é uma profissão que não sobrevive sem a componente relacional... Não te deixes contagiar pelas coisas sem sentido, procura antes o sentido das coisas... Pareceu-te mal o que se passou? Optimo! Se te sentires avontade e se achares que vale a pena, fala com o colega em questão; caso contrário, quando chegar a tua vez, faz as coisas de outro modo... E a tua vez é já! Não esperes pela "morte de mais um"... Começa já no próximo turno, no primeiro "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" que disseres a um doente. Demonstra-lhe toda a tua disponibilidade e abertura, mostra-lhe que te importas, mostra-lhe que te preocupas, e nesse momento estarás a ser uma boa Enfermeira... Com sorte, estarás também a mostrar aos outros colegas uma Enfermagem diferente, uma que teima em não morrer...
A morte? A morte é mais uma fase do ciclo vital... Não esperes uma atitude correcta perante a morte quando não existiu na vida...

 
At 2/11/06 12:18, Blogger mjoão said...

8 anos a Ser ENFERMEIRO (queres tu dizer)

Apenas consegui responder hoje por que, primeiro, as tuas palavras encontraram logo espaços mas depois precisei de lhes dar tempo para que ficassem e se entranhassem...
Deixas-me sem palavras, como já percebeste, pela razão infinita que espelhas nas tuas convivções...
De facto,tocaste em todos os pontos-chave fundamentais daquilo que está por detrás das atitudes que cada um adopta e com as quais se identifica (ou não).

Penso que compreendo aquilo que me dizes, quase em segredo, a parte que interessa: a vontade invencível em continuar a demonstrar "que há uma Enfermagem diferente", que é possível dar-lhe visibilidade com os pequenos (grandes) gestos do dia-a-dia da nossa prática. Essa vontade está cá, acredita, e tento materializá-la na minha prática, mas perante situações como esta que aqui descrevi, também não me foi possível ficar indiferente e não reflectir sobre tudo, fazendo como que uma retrospectiva. Precisei de escrever como forma de cartase, ainda para mais por que este doente há quatro dias atrás também era meu doente...

Um beijinho ;)

 

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