COMO AGUARELA
quinta-feira, junho 28, 2007
quarta-feira, junho 13, 2007
Em dia de Santos
Santo António, o santo casamenteiro, protector e conciliador dos namorados. Sem dúvida que para os lisboetas é o mais popular dos milagreiros da Igreja, sobretudo para os “enamorados” e/ou para os que “sofrem de males de amor”.
Lisboa, cidade inexplicável pela sua beleza ao fim da tarde. Ao passar, por entre os muitos restaurantes, somos inundados pelo fumo das sardinhas assadas e o cheirinho das febras grelhadas. Estar com prazer a contemplar-Te num fim de dia único, ao som de uma tuna académica que enche ainda mais as ruas, já por si cheias de pessoas.
Rua acima, rua abaixo, o rebuliço da vida, ou das vidas de muitos que se cruzam. Uma Lisboa de bairros típicos, de esquinas, de rostos, de histórias. Histórias que se ouvem, umas que se contam e outras, que apenas se adivinham, pois estão num pulsar único de sorrisos e olhares cúmplices e, quiçá, entre portas e janelas. Percorrer o Campo das Cebolas, subir e descer a Rua da Sé, percorrer os caminhos até ao Miradouro de Santa Luzia e sentir a luz única espelhada nos rostos, sentir uma Lisboa de bairros encarrapitados, de música, das histórias da História do Dia de Santo António, de manjericos, do típico e do apaixonado.
Lisboa, cidade inexplicável pela sua beleza ao fim da tarde. Ao passar, por entre os muitos restaurantes, somos inundados pelo fumo das sardinhas assadas e o cheirinho das febras grelhadas. Estar com prazer a contemplar-Te num fim de dia único, ao som de uma tuna académica que enche ainda mais as ruas, já por si cheias de pessoas.
Rua acima, rua abaixo, o rebuliço da vida, ou das vidas de muitos que se cruzam. Uma Lisboa de bairros típicos, de esquinas, de rostos, de histórias. Histórias que se ouvem, umas que se contam e outras, que apenas se adivinham, pois estão num pulsar único de sorrisos e olhares cúmplices e, quiçá, entre portas e janelas. Percorrer o Campo das Cebolas, subir e descer a Rua da Sé, percorrer os caminhos até ao Miradouro de Santa Luzia e sentir a luz única espelhada nos rostos, sentir uma Lisboa de bairros encarrapitados, de música, das histórias da História do Dia de Santo António, de manjericos, do típico e do apaixonado.
sexta-feira, junho 01, 2007
Dia Mundial da Criança
" Porque aquilo a que chamamos criança representa a saúde humana: a curiosidade com que se vence o medo, a alegria e o júbilo, a capacidade de brincar, a ousadia de imaginar, a confiança e o amor, e a esperança" [Eduardo Sá]
Porque hoje é Dia da Criança (o 57 º Dia Mundial da Criança):
um beijinho para todas as crianças
Para os meus Pais, que me contaram as mais belas histórias - histórias de embalar, de sonhar, de aprender, de descobrir, de viajar pelo futuro, de brincar
Para o João, que me explicou - através de gestos - o significado destes contos (sem os conhecer)
Para todas as crianças
Para os amigos de sempre, que são abrigo e que nos ajudam a crescer
Para todos Aqueles que gostem de contos
Autor: Jorge Listopad
Nota de autor: Como os peixes, pequenos e grandes, nadam na mesma água, também toda a gente, sem diferenças de altura nem de idade, vive no mesmo mundo, não dividido, cada vez mais redondo.
Escrevi, pois, um livro sobre este mundo, que se vê, que se imagina, com o qual se pode brincar como com um berlinde; e quando o mundo já não se vê muito bem, porque chegou a noite, acende-se a luz. É a hora de ler, de contar, de ouvir, de imaginar.
Nota de autor: Como os peixes, pequenos e grandes, nadam na mesma água, também toda a gente, sem diferenças de altura nem de idade, vive no mesmo mundo, não dividido, cada vez mais redondo.
Escrevi, pois, um livro sobre este mundo, que se vê, que se imagina, com o qual se pode brincar como com um berlinde; e quando o mundo já não se vê muito bem, porque chegou a noite, acende-se a luz. É a hora de ler, de contar, de ouvir, de imaginar.
«- Casa, propriamente dito, não tenho, diz o caracol à sua prima afastada que namora desde Maio passado. – Mas não estou sozinho – no caso da casa – e não é por isso que me atrapalho. Tenho sempre comigo um barracão, como tu aliás, porque a prima apesar de afastada, era também caracol, com alojamento ás costas.
- Casa séria não tenho, nem prometo ter nos tempos próximos, mas sou senhorio de uma folha de nogueira inteira, de um fio de plástico, de um apito que não apita mas é decorativo, de um tostão forado e… segredou um segredo ao ouvido, ao ouvido da priminha, ela riu-se, mas não sabemos mais nada.
O caracol varão deu a mão à prima e continuou o discurso: - Namorar à antiga não é comigo. Sou cidadão moderno, do século 120 dos caracóis. Não escrevo cartas perfumadas com folhas de rosas, não envio prendas, eu sou directo. Roubo os beijinhos.
Roubou o beijinho tal qual. Ela deixou, mas só um pouquinho, era mais um beijo familiar. Ele, como se não desse por isso, acrescentou: - Assim é. Sim ou não. E sempre para a frente ou não me chame caracol.
- Quando casamos, perguntou ela.
- Depois da época das chuvas. Tens enxoval?
- Tenho guarda-chuva, podemo-nos casar mesmo com chuva. Quando chove num casamento, os noivos serão felizes… e corou um poucochinho».
«Conheci uma menina que se chamava Isabel Macau, vivia na rua de Macau, em Macau, território de Macau. Além disso era menina prendada, gostava de prendas e por cada prenda dava um ou mais beijinhos. Beijava também os cães e gatos, o que não é higiénico, mas diga lá o que é higiénico neste mundo?!
Se enviasse um telegrama de uma palavra a Isabel, escreveria: beijos. Encurtando a história a menina era beijoqueira, dava beijos, recebia beijos, beijos matinais, beijos aquáticos, beijos chineses, beijos malmequeres, beijos açucena, beijos barulhentos, beijos musicais, beijos de inverno, beijos Maria-branca, beijo doce de framboesa ou de mirtilhas. Falando ainda do mesmo assunto, Isabel Macau não tinha nenhum sítio preferido para dar e receber os beijos: todos os sítios eram bons, na praça, na rua, na aula de judo, no Jardim Camões, no corredor do palácio do Governador, na escada, na piscina, no ku-tchai, debaixo de água, no comboio se houvesse, nos carrinhos de mão, na cabina do piloto, no terceiro andar, no dentista, na fábrica de seda ou de pivetes de sândalo.
Ora aconteceu o que tinha de acontecer, nunca é sem tempo: a menina Isabel apaixonou-se por um rapaz cujo nome não digo, porque é segredo militar. Também o jovem aspirante estava pelo beicinho pela menina Isabel Macau de Macau, ele que era de Mangualde, Beira.
Bom. Não vão adivinhar o que se passou: Isabel deixou de beijar toda a gente e todos os animais da vizinhança mas sobretudo nunca deu um único beijo ao seu namorado. Quanto mais gostava dele, menos queria dar beijos de sua boca: achara que gastara beijos a mais. Agora não podia fazer o mesmo para tão grande amor. O tenente que durante este tempo tinha subido de patente, no princípio não compreendeu, mas habituou-se e inventou um truque: beijavam-se pelo telefone. Quem quiser saber mais da história verdadeira que vos estou a contar, escrevam para Isabel Macau que já não se chama Macau, nem mora na Rua de Macau porque se casou e mudou de nome e de casa, mas sempre em Macau, território de Macau.
Observação: desde que se casaram, beijam-se. Os beijos chamam-se beijos de Macau».
- Casa séria não tenho, nem prometo ter nos tempos próximos, mas sou senhorio de uma folha de nogueira inteira, de um fio de plástico, de um apito que não apita mas é decorativo, de um tostão forado e… segredou um segredo ao ouvido, ao ouvido da priminha, ela riu-se, mas não sabemos mais nada.
O caracol varão deu a mão à prima e continuou o discurso: - Namorar à antiga não é comigo. Sou cidadão moderno, do século 120 dos caracóis. Não escrevo cartas perfumadas com folhas de rosas, não envio prendas, eu sou directo. Roubo os beijinhos.
Roubou o beijinho tal qual. Ela deixou, mas só um pouquinho, era mais um beijo familiar. Ele, como se não desse por isso, acrescentou: - Assim é. Sim ou não. E sempre para a frente ou não me chame caracol.
- Quando casamos, perguntou ela.
- Depois da época das chuvas. Tens enxoval?
- Tenho guarda-chuva, podemo-nos casar mesmo com chuva. Quando chove num casamento, os noivos serão felizes… e corou um poucochinho».
«Conheci uma menina que se chamava Isabel Macau, vivia na rua de Macau, em Macau, território de Macau. Além disso era menina prendada, gostava de prendas e por cada prenda dava um ou mais beijinhos. Beijava também os cães e gatos, o que não é higiénico, mas diga lá o que é higiénico neste mundo?!
Se enviasse um telegrama de uma palavra a Isabel, escreveria: beijos. Encurtando a história a menina era beijoqueira, dava beijos, recebia beijos, beijos matinais, beijos aquáticos, beijos chineses, beijos malmequeres, beijos açucena, beijos barulhentos, beijos musicais, beijos de inverno, beijos Maria-branca, beijo doce de framboesa ou de mirtilhas. Falando ainda do mesmo assunto, Isabel Macau não tinha nenhum sítio preferido para dar e receber os beijos: todos os sítios eram bons, na praça, na rua, na aula de judo, no Jardim Camões, no corredor do palácio do Governador, na escada, na piscina, no ku-tchai, debaixo de água, no comboio se houvesse, nos carrinhos de mão, na cabina do piloto, no terceiro andar, no dentista, na fábrica de seda ou de pivetes de sândalo.
Ora aconteceu o que tinha de acontecer, nunca é sem tempo: a menina Isabel apaixonou-se por um rapaz cujo nome não digo, porque é segredo militar. Também o jovem aspirante estava pelo beicinho pela menina Isabel Macau de Macau, ele que era de Mangualde, Beira.
Bom. Não vão adivinhar o que se passou: Isabel deixou de beijar toda a gente e todos os animais da vizinhança mas sobretudo nunca deu um único beijo ao seu namorado. Quanto mais gostava dele, menos queria dar beijos de sua boca: achara que gastara beijos a mais. Agora não podia fazer o mesmo para tão grande amor. O tenente que durante este tempo tinha subido de patente, no princípio não compreendeu, mas habituou-se e inventou um truque: beijavam-se pelo telefone. Quem quiser saber mais da história verdadeira que vos estou a contar, escrevam para Isabel Macau que já não se chama Macau, nem mora na Rua de Macau porque se casou e mudou de nome e de casa, mas sempre em Macau, território de Macau.
Observação: desde que se casaram, beijam-se. Os beijos chamam-se beijos de Macau».
Gosto muito, mesmo muito deste dia, desde sempre...

Uma sala cheia de alunos e poucos adultos. Sentei-me entre os poucos adultos e os muitos alunos. E deslumbrei-me a ouvir esta história que vos apresento de seguida, escrita e contada pela Dr.ª Ana Perdigão, jurista do IAC de Lisboa… tendo sido muitas as trajectórias de vida que se cruzaram nesta sessão.
Há uns dias recebi, em casa, um envelope com literatura relacionada com os Direitos da Criança Hospitalizada e a Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança e um cartão da Dr.ª Ana Perdigão, que me deixou muito grata.
Quero muito partilhar este texto convosco numa data tão especial como o Dia da Criança «porque nem tudo na vida são contos de fadas, porque a muitas crianças é roubada a sua infância e a sua inocência quando ainda não descobriram nem a magia nem tão pouco o significado das palavras, porque muitas desconhecem o gesto amoroso de uma história ao deitar e de um beijo ao levantar... sendo este um testemunho de quem conhece e trabalha com a realidade mais dura das crianças em Portugal (in Lobo Leitor)».
Mary Ellen era uma menina americana, vítima de abandono e maus-tratos por parte dos pais.
Tinha apenas 9 anos de idade quando, por acaso, foi encontrada amarrada com correntes aos pés da cama, por uma voluntária da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade com os Animais.
Não havia qualquer norma que acautelasse tal situação, e garantisse a protecção da menor.
Perante a impunibilidade do facto, em Tribunal foi argumentado que a criança merecia pelo menos a mesma protecção que um cão!
Foi, pois, através da reivindicação para uma criança dos direitos de um cão, que se obteve o reconhecimento judicial da existência de maus-tratos infantis.
O João com 12 anos de idade, acompanhava a sua mãe, quando esta se prostituía. Uma noite, ficou esquecido num jardim da nossa cidade. Sozinho, dirigiu-se a uma Esquadra, onde pernoitou.
Na manhã seguinte, a Polícia veio trazê-lo à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, ficando assim sinalizado como criança em perigo.
Foi-lhe explicado a natureza desta entidade, o modo do seu funcionamento, e as medidas que a mesma pode aplicar.
O João foi ouvido contou-nos a sua história de vida, e não se opôs à nossa eventual intervenção, conforme a lei assim o exige.
Localizada a Mãe, também ela prestou o seu consentimento para o processo correr na Comissão, assumindo não ter condições naquele momento, para ter consigo o filho.
Na ausência de outras pessoas da família mais alargada que pudessem assumir o João, não foi possível concretizar o Princípio da Prevalência da Família, e foi deliberada a medida de promoção/protecção a favor do menor que naquele instante melhor servia o seu superior interesse: o Acolhimento em Instituição.
No acordo assinado pela sua Mãe e a Comissão, ficou desde logo estipulado um regime de visitas daquela ao João, e o compromisso em reorganizar a sua vida para voltar a ter a guarda do filho, cumprindo-se desta forma o princípio da responsabilidade parental.
Já integrado no Instituição, o João começou a frequentar a escola, e a auferir de apoio psicológico.
Um dia, encontrei-o na minha rua. Reconheceu-me como “aquela que me foi levar ao Centro”.
O João estava institucionalizado num Centro de Acolhimento próximo da minha casa, e no seu trajecto para a Escola, passava pela minha rua.
Encontrá-lo de manhã, começou a fazer parte das minhas rotinas, assim como das rotinas do meu marido e dos meus filhos, que muitas vezes já me avisavam:
“Vem ali o João!”...
E era de facto comovente, vê-lo de sorriso aberto, correr rua abaixo sempre que me avistava, só para receber um beijo!
Aquele beijo, com que os pais acordam os filhos, mas que nos Centros de Acolhimento, nem sempre existe!
Ao longo dos 6 meses que durou a institucionalização do João, foram muitas as vezes que me cruzei com ele a passar de manhã na minha rua.
Enquanto o processo corria na Comissão de Protecção, e a evolução da mãe do João era positiva, eu partilhava a sua alegria a ouvi-lo contar os fins de semana com a Mãe, e as novidades da Escola, sempre que me encontrava na rua.
Um dia disse-me que já faltava pouco para voltar a viver com a Mãe...
E eu sabia que assim era!
Em nova avaliação do caso do João, a Comissão de Protecção decidiu a sua reintegração familiar, atendendo de novo ao seu superior interesse:
A mãe do João deixou a prostituição;
Arranjou uma casa para o receber;
Tem um contrato de trabalho;
E, sobretudo, demonstrou sempre a sua disponibilidade materna para voltar a assumir o filho.
O João voltou para a Mãe. Esse facto foi comunicado ao Tribunal, e o seu processo foi arquivado na Comissão de Protecção.
No entanto, a minha rua ficou mais vazia... pois já por lá não passa todas as manhãs, quem para mim corria, para apenas, e tão somente, receber um beijo!
A Mary Ellen nasceu em 1865.
O João nasceu em 1992.
Os 127 anos que separam o nascimento de Mary Ellen do nascimento do João, demarcam bem a distância, essencialmente jurídica, entre a ausência total de qualquer direito reconhecido à criança nascida no séc. XIX, e a existência actual de um vasto cenário legal, que não só encarou a criança como um verdadeiro sujeito titular de direitos, mas que também permitiu o seu regresso para junto da mãe.
No entanto – e quem trabalha nesta área sabe bem – ainda hoje, infelizmente para muitas crianças, os direitos pouco lhes valem em vida, afinal tão curta...
Ana Perdigão
1 de Junho, 2005
1 de Junho, 2005










