Sem título
Um fim de tarde princípio de noite, de um dia grande, curto, em que dei comigo a desejar um abraço e um baloiço...
Nas dobragens de uma folha e num simples rasgar de papel como é que Alguém pode saber tanto de emoções de lá de dentro de mim?
- O que é isso? - pensava ele em alto. Um olhar, o seu olhar mais atento: Aqui houve medo! Foi como um abanão que expôs a nudez de um sentir meu, inconsciente e desconhecido. A espreitar, o medo de me entender...
Na descoberta de pedaços de mim, com os ouvidos colados ao que a sua voz contava: "precisamos e temos de encontrar a ponta do novelo da pessoa..."
Senta-se com toda a sua postura de disponibilidade e de adequação exacta, e agora ainda um olhar mais demorado e misterioso. Vou sendo eu, aos poucos. Uma certa preocupação começa a tomar o lugar do medo, para depois, se transformar em definitivo numa questão de intregração sensorial...
Foi assim, uma espécie de conversa, onde couberam muitas coisas: os abraços que podemos inventar; a comprovação de que todos necessitamos de contacto físico para nos sentirmos bem; a convicção de que não somos pessoas insensíveis, somos sim, pessoas sensíveis e tentamos organizar aquilo que sentimos por que tudo o que nos rodeia nos afecta e nos influencia, por que há sempre qualquer coisa a olhar e a perceber; a partilha da ideia de olharmos para as pessoas não como uma entidade estática mas tentarmos compreender a Outra pessoa de uma forma dinâmica em espiral de auto-actualização; a necessidade que temos de nos organizar e de ir ter com aquilo que desejamos; o espaço que não temos para irmos ao encontro dos nossos próprios desejos, nas situações e contextos em que vivemos, nas cidades, que nos afastam mais do que do essencial; o facto de começarmos a organizar saberes que não compreendemos bem, estando cada vez mais, rodeados de coisas que não entendemos claramente e que estão muito afastadas de nós...
"Já abraçaste alguém hoje?" - começa o António Gonçalves por perguntar no início deste fim de tarde, com o seu modo de perguntar mais natural e descontraído do mundo e de quem leva os abraços, os baloiços e as brincadeiras espontâneas mesmo a sério, entre muitas outras coisas... Agradeço! Sempre o melhor de se receber...

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