sexta-feira, junho 16, 2006

O estaminé da Maria

Início da manhã de um final de semana, sexta-feira. Resolvi ir tomar o pequeno-almoço ao estaminé da Maria, pois estava ali perto e há muito tempo que lá não ia e já tinha saudades de um pequeno-almoço preparado com gosto, pela Maria, sempre com um modo afável para mim, a Joãozinha, que é como a Maria me trata. Gosto da Maria e da sua forma suis generis de atender as pessoas, seja o jardineiro Martins, sejam os doutores, e do seu jeito preocupado em servir bem os seus clientes. Simpatizo com a Maria desde sempre, desde que ela toma conta daquele espaço.
Nas proximidades o estamine já é conhecido e famoso. Anteontem a Ana que vive de um lado para o outro, entre Lisboa e o Porto disse-me que lhe tinham falado deste pequeno sítio, e questionou-me se era assim tão agradável como os seus colegas lhe tinham dito e se o atendimento era bom. Para mim o estamine da Maria é um espaço que sinto pertencer-me um bocadinho, pelas muitas horas lá passadas, por ser um poiso constante dos tempos de estudante, onde passei muitos momentos desta vida, por que sempre que preciso de alguma coisa, como por exemplo, um chá e uma torradinha, principalmente quando me sinto mal disposta ou depois de uma noitada de borga e/ou de estudo, a Maria prepara os meus pedidos ainda com mais cuidado, por que a Maria desenrasca sempre em todos os favores que lhe pedimos, desde deixar lá coisas para Alguém ir lá buscar mais tarde até aos recados que são sempre entregues, por que a Maria tem um ar maternal (as suas duas filhas, ainda pequenas, devem ter muita sorte) e uma maneira de ser muito simpática, bem-disposta (logo ás sete e meia da manhã) e brincalhona, inclusivamente se for preciso diz coisas engraçadas e faz palhaçadas para nos animar o espírito e escuta as nossas “tragédias” com a atenção devida e dá um abraço que sabe tão bem nessas alturas…
Fiz o meu pedido, um sumo de laranja natural e uma torrada, e paguei. A Maria disse para me sentar, mas o seu estamine estava vazio e preferi ficar ali mesmo ao balcão para poder ir falando com ela ao mesmo tempo que me preparava o pequeno-almoço. Entretanto chegou a Margarida, que conheço de vista, dali e das imediações, sendo costume cumprimentarmo-nos na rua sempre que nos cruzamos.
A Margarida pediu um café. A Maria queria que ela comesse qualquer coisa mas ela não quis. A máquina do café assobiava, quando a Margarida disse desmotivadamente que domingo trabalhava. Ao mesmo tempo que mexia o café começou a contar:
- Ainda agora começou o dia e já me chamaram filha da puta.
A Maria questionou-a quem e por quê. Ao que a Margarida respondeu que foi um Homem num carro muito grande que ela não deixara passar na cancela, sendo a sua função de segurança essa mesma, tendo ela autoridade para permitir a entrada de uns e bloquear a de outros. Mas a Margarida tinha a resposta na ponta da língua para dar ao homem do carro grande e diz que ele até se deixou rir da resposta dela… Um pouco indignada comentou connosco, “a faculdade dá canudo mas não dá educação”.
Quando a Margarida ia para pagar o café, a Maria mandou-a guardar o dinheiro e perguntou-lhe se ela queria levar alguma coisa para comer, tendo a Margarida agradecido e dito que não. Trouxera duas sandes de casa para o dia.
A Margarida tem um filho que frequenta o 6º ano mas que para desgosto seu não gosta de estudar e “não pega num livro”. Cuida do filho sozinha e o pai da criança não ajuda em nada, “nem uma caneta dá”. A Margarida trabalha 13 horas por dia com uma folga na semana, desejando que nada falte ao filho. Segunda-feira o filho vai a uma excursão e tem de levar 12 euros para a escola e a Margarida anda a poupar uns trocos para lhe poder dar esse dinheiro e mais algum para ele poder gastar na visita de estudo…
A Maria tem um coração generoso!
A minha torrada acabava de me ser servida, mas em dose suplementar e reforçada, por que segundo a Maria eu tenho de me alimentar bem para a cabeça funcionar como deve ser…