segunda-feira, junho 12, 2006

Um encontro enquanto arte das encruzilhadas da vida

Depois do amanhecer ela despertou de um sono leve. Era um dia de Primavera, daqueles dias em que o canto dos pássaros, o perfume das flores, as árvores viçosas alteram a luz do dia. Ainda era cedo. Soprava uma brisa suave.
O seu caminhar fazia-se de passos firmes. Respirava a liberdade do dia ao mesmo tempo que sentia a frescura do ar que a envolvia.
Chegou à hora marcada, meia hora antes até. Comprou o jornal como forma de entreter o tempo. Guardava a expectativa daquele encontro para dentro de si. Esperou. Ele ligou-lhe e murmurou que estava atrasado, pedindo desculpas. Enquanto esperava, sobrou-lhe tempo para ler o jornal. Ele voltou a ligar-lhe dizendo que estava perto do local combinado e que dentro de alguns minutos estaria ali, tornando a pedir desculpa. Ela continuou à espera, segurando o jornal, tendo o cuidado de verificar se tinha as mãos pintadas de preto ou cinzento mascarrado, ainda que segurando o jornal pelas pontas para que tal não acontecesse. Mesmo assim entendeu que seria melhor lavá-las.
Não sabia se o conseguiria reconhecer e o facto da possibilidade de não dar pela sua presença despertava-lhe um pouco mais o sentido de alerta.
Os minutos gastaram-se.
Ele apareceu e vislumbrou-a de imediato, acenando-lhe. Finalmente estavam ambos ali, pela primeira vez, de entre outras sem propósito algum. Seguiram-se poucas palavras. A sua intelectualidade manifestada através do seu sentido de humor aguçado funcionou como desbloqueador de conversa não encetada. O silêncio a ela prendia-a e preenchia-a, tal como, a falta de naturalidade pelo pouco à vontade. Mergulhada no vazio das palavras. Talvez induzido pela sensação do conhecimento meramente circunstancial.
O Homem de Olhos Verdes era charme, mas não só, por que seria muito pouco. Era cativador.
A cada quilómetro percorrido, a música soava a perfeição e tinha um encanto mágico, sendo capaz de despertar nela emoção e convocar pensamentos recônditos. No retrovisor, a distância do caminho já feito e a estrada que havia ainda por percorrer em direcção ao destino delineado. O olhar do Homem de Olhos Verdes fitava-a. Um olhar brilhante. Dos seus olhos grandes e rasgados inundava expressividade. A condizer com aquele olhar o seu cabelo aos caracóis, a barba por fazer, o sorriso magnético, a voz sedutora e cheia de mimo tornavam-o angelical.
Sem qualquer tipo de obrigação ético-moral, teimosamente abdicou daquilo que lhe apetecia para e por ela. Foi um acto que excedeu a educação, a simpatia, a gentileza. Tímida, sentia-se cada vez mais embaraçada na sua presença e surpreendida por aquele Ser. Aos poucos, a espontaneidade tomou conta do rumo…
O almoço decorreu num ambiente harmonioso, tranquilo e sobretudo leve. Pausadamente degostaram conversas recheadas. Servia-lhe água como se tocasse piano. Olhava-a sempre com aquela profundidade de olhar e profundeza de alma, sem ser intimidador. Antes pelo contrário, como uma fusão de olhares espelhados.
As horas avançaram.
Ela esperou.
E agora era o regresso que os esperava.
Ao despedir-se, o Homem de Olhos Verdes fê-lo sem convicção. De diferente maneira, a despedida dela foi de agradecimento e de lisonjeio. Encontrava-se de costas, já sem o poder alcançar no seu campo visual, quando a voz dele chegou até ela. Voltou atrás na direcção e ela parou de caminhar, esperando-o.
Subitamente decidira ficar mais um pouco.
Mutuamente entreolharam-se e disseram algumas palavras, as quais eram trespassadas pelo crepúsculo. O pôr-do-sol estava para acontecer e por isso os restos de sol iluminavam aquele lugar recatado na sua pequenez, em plena cidade.
Passaram-se alguns minutos, breves…
Esforçara-se mas não conseguia compreender por que lhe era impossível aceitar tal injustiça. Sentia apenas o prolongamento da sua dor. A dor que ele sentia esmagava-o. O silêncio parecia-lhe insuportável naquele momento de suportar. Mas não sabia o que dizer. A ela faltavam-lhe as palavras e sobretudo as palavras certas. Apetecia-lhe envolvê-lo num abraço fechado e apertado que fosse contentor para ele, mas não o fez. À volta a realidade que os rodeava. Tentou fazê-lo através do olhar, sem perceber se o olhar dela cruzaria o dele e se ele decifraria aquilo que lhe tentava transmitir. Mas o não verbal era a única forma possível de comunicar na presente circunstância e ao mesmo tempo parecia-lhe algo difícil demais. Contudo, a situação justificou-o.
O desrespeito. A morte que ainda o assolava. A humilhação. A desacreditação. A desvalorização. Os medos e os receios que o contagiavam. A incerteza no lugar das certezas quase que absolutas…
Os últimos milésimos de segundos em que estiveram juntos foram tristes. O dia perdeu o sentido. O prazer de fumar desvaneceu-se naquele cigarro acabado de ser acendido. Ao perscrutar o seu olhar entendeu que ele precisava de ficar só e que jamais poderia acompanhar a partilha da sua mágoa.
Não se despediram e ela começou a caminhar na direcção oposta. Antes, contudo, houve tempo para ele lhe esboçar um sorriso. Sorria para não chorar. Era um sorriso de sorrir para os olhos não descaírem em choro. A dor tomava conta do Homem de Olhos Verdes. Dor que era transparente aos olhos dela.
Partiu. Não voltou a olhar para trás. Sentiu naquele instante um vazio que lhe deixava a alma a descoberto. Os seus olhares não se voltaram a cruzar.
À noite as estrelas brilhavam no céu e a lua iluminava a escuridão da noite. O seu coração cintilava nele. Os seus sentidos estavam em sobressalto pela comoção e pelo calor que impregnava daquilo que os tinha unido, um dia de coisas apetecidas.
Para ele a noite foi uma imensidão de solidão.