sexta-feira, junho 09, 2006

História de um dia sem fim

O dia sem fim fez-me desejar voltar atrás, sensivelmente quatro anos no tempo, e poder estar naquela sala cheia só de boas energias, preenchida por cores suaves, por uma música apaziguante e apaziguadora, ao entardecer e a deixar-me ir naquela viagem. Tenho consciência que ainda não tenho as forças nem a coragem suficiente para a encetar, talvez por medo. Gostava de a fazer com a presença da A. e do P. tal como aconteceu pela primeira vez e ter o seu colo no fim da viagem, assim como, os seus olhares de cumplicidade e de compreensão, as suas palavras, depois do regresso. Nessa impossibilidade vou guardar comigo este dia, para quem sabe, se algum dia conseguir viajar por ele adentro...
Era uma vez um dia infinito em intensidade. Um dia em que se é invadido por uma plasticidade de emoções, de sentimentos e de estados de alma estranhamente diversos e estrondosamente contraditórios, sem qualquer tipo de aviso prévio. Dentro deste único dia parece que o perfizeram dias que condensaram em simultâneo uma mistura de pedaços de vida antagónicos, felizes e nostálgicos, tristes e angustiantes. Este dia pareceu-se um bocadinho com aqueles brinquedos com que brincava quando era pequena, em que à vista desarmada só se observava uma forma geométrica de uma cor, mas de repente, descobria-se que aquela forma geométrica se desmontava e dava origem a outras formas geométricas de tamanhos mais pequenos do que a anterior e de cores diferentes. Dentro de uma forma geométrica que parecia única estavam, portanto outras, e à medida que íamos desvendando uma forma geométrica íamos sempre descobrindo dentro dela uma outra, não existindo apenas uma como nos parecia à primeira vista, mas várias, uma maior, outras de dimensões intermédias e uma sempre mais pequenina, não se sabendo aparentemente da sua existência, por que depois de tudo arrumado a peça geométrica era apenas uma. O dia sem fim foi um dia assim. É como se dentro deste dia coubesse um só dia capaz de condensar nele simultaneamente um dia de chuva que logo se transforma num dia em que o sol inunda todos os espaços, cantos e recantos com raios de luz radiosos, contemplando-nos com uma luminosidade límpida para imediatamnete o tempo mudar novamente e nuvens espessas cobrirem o céu, como naqueles dias em que se adivinha trovoada e a atmosfera se torna taciturna e o dia o mais feio dos últimos dias, escurecendo rapidamente, fazendo da tarde já noite. Foi também um dia como se o vaivém das ondas do mar pudesse, num instante, ser agitado como quando as ondas do mar batem violentamente contra os rochedos, levando consigo tudo aquilo que se atravessar no seu caminho, e noutro momento, logo de seguida, deixasse de existir ondulação e o mar estivesse calmo como em lânguidos dias de praia no Verão, que não têm fim, em que a água apenas nos contempla com "movimentos de embalar" e nos quais apenas se podem observar ondas a rebentar mesmo à beira-mar, como aquelas que os mais pequeninos ousam desafiar nas suas brincadeiras constantes, e que, talvez pela frescura da água em conjunto com a maciez da areia, chegam até a fazer cócegas, ao molharem os pés delicados das crianças...
O dia infinito em intensidade foi im dia de felicidade, contentamento, gratidão, de uma sensação de alma cheia pelas muitas coisas boas e momentos singelos na sua beleza. Doeu pela desilusão da crença ilusória nos sonhos, projectos, pelo desgosto, pela hostilidade, pela perda de uma réstia de esperança. O coração palpitou por emoções fortes, dilatou por se ter enchido de alegria e foi afectado pelo bem e pelo mal.
O dia sem fim deixou o feeling de que um dia pode parecer uma eternidade, e muito tempo um só dia, depende do empenho e do coração que se deposita no tempo e nas coisas, a quase certeza de que não existe começar nem acabar, apenas pontos - diferentes pontos que deixam marcas num caminho e a certeza de uma saudade clara e profunda, no futuro.
A noite chegou e com ela o fim do dia... Mas não o fim da infinitude da intensidade deste dia... A noite foi cedendo lugar à aurora, aos poucos. À medida que as imagens dos acontecimentos do dia sem fim rodopiavam no espaço onde me movia, todos os momentos deste dia/pedaços-de-vida marcantes submergiram à consciência de forma cada vez mais nítida.
A ténue luminosidade do amanhecer invadiu o chão, o seu reflexo atravessou as cortinas brancas e ficou espelhado no tecto. Os primeiros raios de sol espreitaram pelos vidros da janela...

3 Comments:

At 10/6/06 14:44, Anonymous Anónimo said...

Olá!
Li o comentário que a Maria Pereira deixou, e imediatamente me identifiquei com as suas palavras. Tal como ela, também eu segui de perto os resquícios. Escreves mesmo muito bem!
Espero que continues a deslumbrar-nos com as tuas palavras neste novo blog. Sei que, como aquarela, vais mostrar-nos aquilo que te vai na alma e, vais tentar encher de cor a vida daqueles que contigo partilham este espaço tão interessante.

Um beijo grande!

Rute

 
At 12/6/06 01:44, Anonymous Anónimo said...

hello mary

há dias assim, cuja intensidade nos surpreende e quase nos parece esmagar.

Gosto de aguarelas, gosto de cores. reflectem muito mais a luz que há em ti.

Beijinhos grandes linda e parabéns pela tua nova casa.

 
At 12/6/06 04:10, Blogger mjoão said...

Ana
Obrigado pela tua presença, sempre. Pela tua luz. Pela a amizade de todos os momentos.

Gosto de ter a sorte de me poder relacionar com pessoas maravilhosas como tu!

Beijinho enorme

 

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