Trajectórias pelo o Universo dos Livros
Como Umberto Eco escreveu «(…) Há poderes imateriais, não avaliáveis a peso, que seja como for pesam.
Estamos rodeados de poderes imateriais, que não se limitam aos que denominamos por valores espirituais, como uma doutrina religiosa. Também é um poder imaterial o das raízes quadradas, cuja lei severa sobrevive aos séculos e aos decretos não só de Estaline, mas até do próprio Papa. E entre estes poderes eu também incluiria o da tradição literária, ou seja, do conjunto de textos que a humanidade produziu ou produz não para efeitos práticos (como ter registos, anotar leis e fórmulas científicas, fazer actas de sessões ou estabelecer horários ferroviários) mas antes gratia sui, por amor de si própria – e que se lêem por prazer, elevação espiritual, ampliação de conhecimentos, se calhar por puro passatempo, sem que ninguém nos obrigue a fazê-lo (se exceptuarmos as obrigações escolares).
É isto que dizem todas as grandes histórias, quando muito substituindo Deus pelo destino, ou pelas leis inexoráveis da vida. A função dos contos “inalteráveis” é justamente esta: contra todos os nossos desejos de mudar o destino, dão-nos palpavelmente a impossibilidade de o alterar. E assim fazendo, seja qual for a história que contam, também contam a nossa, e por isso os lemos e amamos. Temos necessidade da sua severa lição “repressiva”. A narrativa hipertextual pode-nos educar para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo. Os contos “já feitos” ensinam-nos também a morrer».
Estamos rodeados de poderes imateriais, que não se limitam aos que denominamos por valores espirituais, como uma doutrina religiosa. Também é um poder imaterial o das raízes quadradas, cuja lei severa sobrevive aos séculos e aos decretos não só de Estaline, mas até do próprio Papa. E entre estes poderes eu também incluiria o da tradição literária, ou seja, do conjunto de textos que a humanidade produziu ou produz não para efeitos práticos (como ter registos, anotar leis e fórmulas científicas, fazer actas de sessões ou estabelecer horários ferroviários) mas antes gratia sui, por amor de si própria – e que se lêem por prazer, elevação espiritual, ampliação de conhecimentos, se calhar por puro passatempo, sem que ninguém nos obrigue a fazê-lo (se exceptuarmos as obrigações escolares).
É isto que dizem todas as grandes histórias, quando muito substituindo Deus pelo destino, ou pelas leis inexoráveis da vida. A função dos contos “inalteráveis” é justamente esta: contra todos os nossos desejos de mudar o destino, dão-nos palpavelmente a impossibilidade de o alterar. E assim fazendo, seja qual for a história que contam, também contam a nossa, e por isso os lemos e amamos. Temos necessidade da sua severa lição “repressiva”. A narrativa hipertextual pode-nos educar para a liberdade e para a criatividade. É bom, mas não é tudo. Os contos “já feitos” ensinam-nos também a morrer».
O trajecto pelo o universo dos livros pode ser percorrido através de livros comprados ou emprestados e/ou já arrumados na prateleira de uma estante; de livros pelos quais nos apaixonamos; de livros lidos às escondidas que fazem parte das nossas memórias; de livros que desenham personagens que pertencem ao imaginário e universo infantis; de livros dos quais guardamos somente frases ou ideias; de livros escolhidos minuciosamente, de livros guardados para próximas leituras, de livros que se julgam já lidos pela familiaridade dos títulos; de livros lidos à pressa; de livros viciantes, lidos repetidamente…
Os livros são lugares de palavras. Palavras espalhadas a cada desfolhar de uma página de um livro. Nas palmas das mãos, ao abrir-se um livro, imediatamente, a geometria das palavras inscritas no papel. Palavras com sabor a companhia eterna, dentro dos dias.
Na escrita e na leitura, sempre a acção permanente de descoberta, de compreensão, de revelações infinitas, de histórias partilhadas que, não nos pertencendo, deixam em nós pedaços de outras vidas e de outros mundos, construídos, vividos ou simplesmente sonhados, criando assim, em cada leitor, uma identidade peculiar e única.
Finalmente, hoje fui à Feira do Livro e foi simplesmente uma delícia folhear e desfolhar livros de trás para a frente e da frente para trás, abrir folhas em páginas ao calhas e simplesmente debicar um parágrafo ou ler uma frase mais atentamente de tais livros, descobrir novos autores, redescobrir autores já conhecidos, comprar livros, ter tido dois dedos de conversa com o José Saramago, uma vez que o livro As Intermitências da Morte fora um dos meus pedidos de prenda de Natal não satisfeito (o meu pai achou que a minha mãe já me tinha comprado o livro e, por sua vez, a minha mãe pensou que o meu pai me ia oferecer o dito cujo, resumindo e concluído fiquei "a ler" em branco), ter tido a oportunidade simultaneamente de o esclarecer acerca da minha curiosidade por este livro após o seu interesse em perceber o que é que leva uma jovem a interessar-se pela temática da morte, regressar a casa já à noite carregada e com as mãos totalmente preenchidas por sacos com livros, feliz e contente, deserta por sentir aquele cheiro a folhas de papel e à tinta de livros novos e poder passar página a página demorando-me, o tempo que entender, em cada frase... talvez por cada palavra poder alargar o mundo, acrescentando sentido aquilo que já se sabe lá no fundo...

1 Comments:
Olá!
Decerto, deves estar surpreendida pelo meu comentário. Quero dizer-te que desde o início acompanhei o blog resquícios e que tenho adorado a maneira como escreves. Fiquei triste quando lhe puseste fim. Mas hoje, quando vi no msn que tinhas iniciado outro, vim logo espreitar.
Espero poder continuar a ler as tuas palavras. É um dom divino.
Desejo-te muita sorte e continua assim...
Beijinhos
Maria
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