domingo, fevereiro 11, 2007

E há dias como estes em que gosto mais da enfermagem do que outros

Há pessoas que nos tocam de uma forma especial. Onde está escrito pessoas poder-se-á ler, também, doentes. A enfermagem permite-nos ter um contacto privilegiado com o Outro, o entrar em relação com… de uma forma especial, com ousadia, quando levamos na bagagem do nosso íntimo a certeza de que estamos perante uma pessoa única, com os seus próprios saberes, medos, receios, sonhos, histórias de vida, carrregando consigo toda a sua individualidade de trajectórias e percursos e caminhos traçados…
Gosto de poder deixar-me levar pelos pequenos gestos, pelas pequenas coisas que fazem a diferença, (senão toda a diferença)! A cumplicidade de um olhar, as ideias partilhadas, quase que por acaso, em diálogos que começam sempre de forma tão simples e límpida e sincera e que se deixam entrelaçar em mais e mais conversas, os sorrisos comoventes de tão genuínos que são, assim como as lágrimas…
E depois, há as histórias, como p.ex. as histórias acerca do Simão e do Tomé que vindo de dentro dos outros, instalam-se dentro de nós e, não nos pertencendo, preenchem-nos e passam a ser nossas também, e ainda há livros e/ou pequenas lembranças que, muitas vezes, se trocam como forma de despedida, que não o chega a ser …

2 Comments:

At 14/2/07 17:15, Anonymous Anónimo said...

Jão, partilho da mesma opinião e do memso sentimento. Como é bom conversar com as pessoas que temos ao nosso cuidado. É uma forma de aprender... Ainda ha uns dias, foi neste tipo de contacto, que aprendi a jogar o dominó chinês... e foi há mais tempo que aprendi a razão de sunitas e chiitas andarem constantemente em conflito.
Que mais me entristece, é não ter mais tempo para conversar...

 
At 19/2/07 02:56, Anonymous Anónimo said...

Olá amiga sulista!

Se achas que certos doentes te "tocam" de forma especial imagina o que não sentiram eles que se encontram numa situação que, do ponto de vista deles, é inferior?

A maior parte dos doentes queixa-se (quando se queixa) de condições "hoteleiras": a comida é fria, o doente do lado não o deixa dormir a noite toda, a cama é muito alta, etc... O resto, para eles não é problema... Eles vão para o hospital para sofrer... Eles já esperam que o seu corpo seja "invadido" por agulhas, eles esperam que o seu corpo seja tocado para os cuidados de higiene, eles esperam que os seus chinelos sejam chutados para debaixo da cama, eles esperam que os Enfermeiros mexam nas coisas que têm na mesa de cabeceira e nas gavetas... Tudo sem autorização... Eles sabem que no hospital nada é deles e não reclamam porque senão podem não ter os tratamentos que precisam...

Tempo? Sim, falta tempo... Tempo? Sim, não conseguimos arranjar mais... Mas e o respeito? Sim, o respeito e a educação? Quantas vezes dizemos "Sr José, esta é a sua cama e a sua mesa de cabeceira" e passado uns dias dizemos "Sr José, não pode ter aqui estes jornais todos!!! Olhe como está esta mesa de cabeceira! Que desarrumação!". Então a mesa de cabeceira não era minha? - pensa o doente... Passado um bocado chegamos lá e abrimos a gaveta e dizemos "Onde está o seu pente? Deixei-o aqui ontem!!!". Então não posso andar com o meu pente no bolso para me pentear quando for ao quarto de banho? - pensa o doente... "Sr José vou por os seu chinelos nesta porta...". Mas eu gosto deles no chão para quando me levantar não ter de me abaixar... - pensa o doente... "Sr José não pode estar na cama a esta hora!!! Vamos lá levantar...". Então não posso estar na minha cama? Eu gosto de estar um bocado na cama depois de almoçar... - pensa o doente... E só pensa... Raramente diz nada...

Antes de pensar no tempo para falar e partilhar as coisas com os doentes devíamos pensar no tempo que passamos com os doentes e a forma como o fazemos...

Querida amiga, não leves a mal este meu comentário no teu blog mas tenho passado algum tempo no hospital como amigo de uma pessoa que está internada e vejo muita coisa... Afastado da impessoalidade e tecnicismo dos meus cuidados intensivos deparei-me com a impessoalidade e indiferença de um internamento... Isso faz-me pena... Muita pena... Pena pelos doentes e pena pela Enfermagem como profissão...

Continua a pensar Enfermagem e a reflectir pois estás no bom caminho...

 

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