domingo, fevereiro 11, 2007

Eroscópio

«Eroscópio é um projecto que se alimenta essencialmente das palavras de diversos autores, onde o amor e o erotismo convergem para a elaboração de um universo poético de alma Portuguesa.
Este projecto surgiu em Beja, no ano 2004, como resultado da cumplicidade artística entre Paulo Ribeiro (ex-vocalista dos Anonimato, na guitarra acústica) e o actor/performer António Revez. Posteriormente, juntaram-se-lhes Manuel Nobre (baixo), João Rosa (guitarra eléctrica), César Silveira (piano e teclados) e Marco Cesário (bateria).
A partir da música composta por Paulo Ribeiro e arranjada por todos os membros da formação, a perfomance baseia-se na interpretação das palavras de diversos poetas portugueses contemporâneos».
Numa noite lânguida e melancólica, notas musicais espalhadas pelo teatro Bernardim Ribeiro a conferirem uma força ainda maior ás palavras e à poesia e a acompanhá-las a expressão dramática no palco encetada pelo vocalista. Os movimentos, os sons, os jogos de luz, a entoação a encher uma noite, noite de música e de poesia em Estremoz...
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
ADEUS, Eugénio de Andrade
(...) e o remorso...
um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio...
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração (...)
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.
OFÍCIO DE AMAR, Al Berto
(...) e esse canto enche-me os
ouvidos, obriga-me a fechar os olhos e a virar-me
para a parede onde a tua sombra adquire um contorno
de bailarina (...)
Assim, ao preparar a jogada, como ignorar a tua
presença nesse bailado de luz e sombra; (...)
Da escuridão
do canto, digo em voz baixa que te amo
FIGURA VELADA NA CAVE, Nuno Júdice

2 Comments:

At 13/2/07 01:54, Anonymous Anónimo said...

olá mary

foi um grande serão. o vocalista tinha a dose de loucura que era exigida à ocasião. a música encontrava-se em perfeita sintonia com a envolvência das palavras que nos levavam até longe, para sítios onde aqueles de quem sentíamos a falta, estariam presentes.
de qualquer forma a companhia foi muito boa, como o é sempre.

beijinhos amiga e uma boa semana

 
At 21/11/09 07:35, Anonymous Anónimo said...

Por que nao:)

 

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