"Tão perto, tão longe"
«Estas fases em que há um filho muito bebé para criar (...) é de uma tal violência física e psicológica que ás tantas já não sabemos em que terra andamos. (...) Nada é mais duro do que estar a adormecer e a acordar em constante intermitência, num pára-arranca de sono que arrasa qualquer um.
Isto reflecte-se em tudo. (...) E ás tantas já estamos a despenhar-nos no sofá ou a adormecer por cima dos lençóis, como se de um surto de narcolepsia tivesse tomado conta da casa. Depois, acordamos estremunhados e são três da manhã, temos um torcicolo desgraçado, as costas feitas num oito, a cabeça em papa. Ficamos duas horas acordados e queixosos, e quando finalmente conseguimos adormecer já é hora de levantar.
É por isso que ter filhos é um teste tão poderoso à solidez de um casamento. A nossa tolerância fica com a espessura de um fio de cabelo, o mau humor com a dimensão da ponte Vasco da Gama, e qualquer irritação miníma é a desculpa perfeita para largar em cima do outro o vapor acumulado. Acho imensa graça àqueles pediatras que chamam a atenção para as necessidades do marido e da mulher após o nascimento de um filho, pois é preciso continuarem a arranjar tempo um para o outro, e patati-patatá. Um grande "ah ah ah" para eles. Em teoria, é tudo muito bonito. Mas, na prática, o meu conselho é este: agarrem-se bem ao mastro do navio, que a tempestade há-de passar.»
João Miguel Tavares
Etiquetas: Ser-se Pais

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