Impressões
Passei diante de si todo o dia, trazendo o cabelo apanhado com um rabo de cavalo. Depois de várias horas, este Homem que teve oportunidade de privar com Mário Cesariny tomou coragem e disse que me achava muito parecida com Luiza Neto Jorge. A forma de se exprimir foi muito gira: tem de ver fotografias de Luiza Neto Jorge, se fossem mãe e filha não poderiam ser mais parecidas...

Deu-me o seu retrato biográfico: tradutora e poetisa portuguesa; resumiu-me um pouco da sua vida: frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi fundadora do Grupo de Teatro de Letras, mas desistiu do curso e foi viver para Paris, onde permaneceu durante oito anos (1962-70). Ainda hoje é considerada a personalidade de maior destaque do grupo de poetas que se reuniu em torno do movimento Poesia 61. Como tradutora deixou uma obra inigualável, nos domínios da poesia, da ficção e do teatro. Fez adaptações de textos para teatro e colaborou com alguns cineastas, tendo escrito diálogos para filmes. Salvo poemas avulsos em algumas publicações, como é o caso da revista Colóquio-Letras, não publicou nenhum livro nos últimos dezasseis anos de vida. Encontra-se representada em quase todas as antologias de poesia portuguesa contemporânea (editadas em Portugal e no estrangeiro) e tem grande parte dos poemas traduzidos para diversos idiomas. Morreu em Lisboa pouco antes de completar 50 anos.
Aconselhou-me o livro por ela traduzido que acha de uma magnífica tradução: há vários anos lera-o em francês e agora está então a lê-lo novamente, traduzido pela Luiza Neto Jorge... Vou comprar, então, este livro que não poderei deixar de ler: "Morte a Crédito".
«Em Morte a Crédito, o narrador é também a personagem principal da diégese. Nós, leitores, funcionamos como o seu diário, ao qual relata pormenorizadamente o dia-a-dia no consultório onde trabalha como médico, não nos escondendo nada, nem mesmo as observações mais pessoais. Contactamos com a sua natureza frágil e fragmentada de homem engolido pela imensidão de Paris – cidade onde vive e trabalha –, ficamos a conhecer os seus dramas pessoais, a tendência para o diletantismo e a miséria humana a que assiste diariamente por causa da profissão que exerce.É um livro interessante pela impressão que nos fornece do homem enquanto ser que se distancia dos outros e deixa o pensamento falar com extrema crueza e egoísmo.»

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