quarta-feira, fevereiro 18, 2009

E se amanhã...

Gosto dos dias que trazem o inesperado que soa a surpresa pela infinidade de probabilidades que se cruzam. Gosto dos dias em que acontece pensar a distância. Gosto dos dias casuais. Gosto dos dias que suportam o tempo. Gosto dos silêncios mornos. Gosto das noites que têm muitas estrelas. Ás vezes gosto também de não recordar: lembro-me do dizer psicanalista: "depois fica com uma má memória". Mas também sabemos que «uma vez estabelecida, uma memória emocional parece ficar para sempre. Do ponto de vista da evolução é extremamente funcional nunca esquecer os acontecimentos mais importantes da vida» (Nature Neuroscience). Gosto de pensar num tempo que já passou e que tem sempre as mesmas pessoas lá, apesar de ser um tempo em que faltam pormenores - um tempo que já não volta a ser possível, mas em que se é capaz de regressar a ele.

Dentro dos meus olhos
«Hoje, eu sei quanta serenidade é necessária (...). Aqui, onde estou, sei isso. São paredes à minha volta (...). Para além do som das teclas do computador, o ponteiro dos segundos de dois relógios, alternados, um aqui e o outro ali. Depois das paredes, ás vezes, um autocarro, ou silêncio. Este lugar, este tempo, sob o ponto de vista de quem está rodeado de palavras, a escrever, como é o caso (...). Como nesse dia, se me encostar ou se me inclinar, entro em mundos diferentes. (...) Eu estava numa situação que pode ser comparada a estar aqui, agora, e isso é extraordinário conforme se verá.
Uma razão forte para essa admiração é que, aqui, nesta penumbra, paredes, ouço agora uma ambulância, dois relógios, posso imaginar todo o futuro. Essa é uma possibilidade incontestável. Não sei distinguir o possível do impossível, mas sou capaz de imaginá-los a ambos. E talvez a verdade esteja espalhada ou escondida em alguma parte desse infinito. Se isso não é extraordinário, desisto. Impressionante também é o facto de que quase tudo o que aqui disse sobre mim, pode igualmente ser dito sobre ti. (...) Também tu estás num hoje em que podes recordar e em que podes imaginar. Sim, tu. Se não conheces a véspera (...) é porque conheces outra ocasião que apenas tu saberás e que poderás lembrar hoje ou, mais tarde, num dia em que estejas assim, entre memórias e possibilidades. O tempo não passa depressa, mas passa. (...) Apenas parecia muito nitidamente que era assim. Ás vezes, ainda parece. Existe a precisão geométrica e os registos; no entanto, depois do amor, provou-se que nada tem de ficar como está ou de ser como é.
Hoje, tenho estas paredes à minha volta e a suspeita de que, entre o que sei está já tanto daquilo que serei. O que ainda não está aqui, iniciou já o seu caminho, dirige-se ao ponto onde me encontrará. É assim contigo, também. É necessária paz para aceitar esta certeza simples, é necessária uma mistura de ponderação e entusiasmo para sermos capazes de desenhá-la pelos nossos contornos, tanto quanto possível, claro. Isto que parece banal são os desafios que a vida nos coloca. Aqui, neste momento (...) carregamos o passado e o futuro (...)».
José Luís Peixoto